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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Nebraska


    Alexander Payne é um diretor e roteirista que, em sua curta, porém formidável filmografia enfoca em homens comuns. Estes exemplares que partem em jornadas simples, mas que no fim revelam muito sobre eles. "Sideways", "As Confissões de Schmidt" e "Os Descendentes" são ótimos estudos de personagem, acompanhados de excelentes análises sobre a sociedade - em seus diferentes focos -. Em seu mais recente longa, "Nebraska", pela primeira vez Payne dirige um roteiro que não é de sua autoria, mas que não foge desta estrutura.

    Escrito por Bob Nelson, o roteiro conta a história de Woody (Bruce Dern, "Django Livre") e David (Will Forte, "Vizinhos Imediatos de 3º Grau"), pai e filho, que embarcam numa jornada após Woody receber uma carta dizendo que ganhou um milhão de dólares. Mesmo sabendo que se trata apenas de uma enganação e com os berros de reprovação de sua mãe, Kate (June Squibb, "Perfume de Mulher"), o filho se propõe a acompanhar o pai até a cidade onde supostamente deve retirar o prêmio. No meio do caminho, porém, David resolve reunir o pai e sua família que há tempos não se veem.

    Utilizando maravilhosamente bem a fotografia em P&B, que cumpre seu papel em criar um ambiente precisamente melancólico e desesperançoso, o longa embarca nesse road movie entre pai e filho. O reencontro de Woody com seus amigos e parentes não poderia ser pior e mais representativo em termos de prisma social. Unicamente interessados no dinheiro do suposto novo milionário, surgem débitos do passado aos montes. E os supostos momentos de união familiares são absolutamente desinteressados, com uma família que não consegue criar uma conversa minimamente decente. Homens que ficam assistindo ao jogo na TV e só trocam algumas parcas palavras para falar sobre carros.

    A construção de Nelson e Payne é eficiente na construção de sua metáfora social e quase sempre consegue desviar com habilidade da caricatura e do lugar-comum. Além de sua visão ampla sobre a família, o longa entra numa discussão próxima à vista em "As Confissões de Schmidt" sobre os efeitos da idade no ser humano. É, em última análise, um apanhado imagético sobre a vida. Tanto do ponto de vista do filho, esforçado em criar uma situação de felicidade e perseguir o sonho de seu pai que a qualquer momento pode partir; quanto do pai, que como diz a mãe "não vê o que ocorre ao seu redor metade do tempo".

    As atuações são certamente outro destaque. Bruce Dern, ganhador do prêmio de melhor ator em Cannes, está magistral e poderoso. June Squibb também está competentíssima e apaixonante no papel da "super sincera" Kate. Will Forte surpreende em uma interpretação crível e segura, assim como os demais coadjuvantes. Certamente um dos melhores elencos do ano.

     Mesclando humor e drama, como típico nas obras de Payne, o longa consegue construir uma transição eficaz entre ambos, sem se tornar irregular. Mas é certamente na sua vertente dramática que o filme guarda sua força, ao contar uma história emocionante, tocante e real. Um retrato social sincero sobre a vida e a forma como passamos por ela, com suas alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. Roteiro brilhante, direção competente, atuações magníficas e técnica eficaz alicerçam uma película memorável e simples, como nossa vã existência.

Nota: 8/10
    

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ela


    A carreira do diretor Spike Jonze inicialmente era atrelada a filmes roteirizados pelo gênio Charlie Kaufman. Ao lado dele entregou grandes obras como "Adaptação" e "Quero Ser John Malkovich", as quais guardavam boa parte da sua força no talento de Kaufman em seus roteiros inteligentes e criativos. Em 2009, então, Jonze se lançou à "carreira solo" com "Onde Vivem os Monstros", mas apenas agora com "Ela" podemos dizer que realizou um grande acerto. Aclamado pela crítica e público, o longa é uma obra densa, bela e original.

    Se passando em um futuro não muito distante, em que o ser humano adquiriu uma proximidade e contato ainda mais forte com as máquinas, o filme conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix, "O Mestre") e sua relação romântica com o sistema operacional que coordena sua vida, Samantha (voz de Scarlett Johansson, "Encontros e Desencontros"). Algo próximo de uma Siri superdesenvolvida, com sentimentos e personalidade própria e construída para contemplar todas as necessidades (todas mesmo!) de Theodore.

    Apesar da trama aparentemente fora de realidade, a construção de Jonze cria um ambiente totalmente crível. É, na verdade, uma análise sobre o sentimento humano; não uma banal comédia romântica. Jonze não se prende a limites e abarca toda uma discussão sobre a natureza do que sentimos. Contrastando com o relacionamento de Theodore e Samantha; temos diversos estágios das relações humanas. O primeiro encontro. O início. O meio. O fim. O divórcio. A dor. A desilusão. O recomeço.

     Os personagens são defendidos com absoluta competência pelo forte elenco. Joaquin Phoenix demonstra ser um dos melhores atores da atual geração, com uma interpretação sensível e real. Scarlett Johansson estranhamente toma o filme para si a partir de uma composição de voz extraordinária. A atriz consegue trazer toda a complexidade daquela criatura tecnológica unicamente pela voz. Não a vemos, mas a sentimos de forma completa. Amy Adams como Amy, amiga de Theodore, também merece destaque. Além de Olivia Wilde e Rooney Mara, em pontas interessantíssimas.

    Contando também com uma belíssima trilha sonora e uma competente direção de arte, "Ela" possui o melhor dos roteiros originais indicados ao Oscar deste ano. A transformação de um argumento interessante em realização excelente é feita com grande habilidade por Jonze, também roteirista. Mesmo que também apresente certas críticas à relação homem-máquina, seu foco não é este - e ele nem perde tempo com essa discussão já tão exaustivamente explorada -. Ao observar isso por um novo ângulo, Jonze mantém o fôlego do longa e o interesse do espectador, mesmo que lá pelas tantas de seu último ato o filme perca força e caia numa resolução convencional.

    Ainda que não tenha a força de suas parcerias com Charlie Kaufman, "Ela" serve como afirmação autoral de Jonze em sua caminhada solo. Uma interessante obra que indica mais um diretor e roteirista que merece ser observado. "Ela" é um filme belo, poderoso e que apresenta pontos de vista e discussões interessantes. Acompanhado de boas interpretações, é certamente um dos filmes da temporada de premiações que não pode deixar de ser visto.

Nota 8/10
    

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Philomena



    "Philomena" é um filme simples e que se baseia numa história real  para construir uma obra que, em sua curta duração, consegue discutir temas certamente polêmicos sem cair no sentimentalismo barato ou tentar chocar o espectador a qualquer custo. Stephen Frears ("Ligações Perigosas") cria uma trama baseada em seus atores competentíssimos e num roteiro muito bem costurado, pegando para si a função de apenas acompanhar o desenrolar de tudo, com um trabalho de câmera convencional, porém eficiente.

    Philomena (Judi Dench, "007 - Operação Skyfall"), na adolescência, engravidou de um menino, foi condenada a uma vida servil num convento e separada de seu filho, o qual foi vendido para um casal de americanos contra sua vontade. Décadas depois, ela conta com a ajuda de um jornalista desempregado (Steve Coogan, "Trovão Tropical") na busca pela criança desaparecida.

    Seria um filme comum, com gostinho de dejá vù, não fossem as excelentes subtramas costuradas pelo roteiro de Jeff Pope e do próprio Coogan. Além de, claro, as maravilhosas interpretações de Coogan e, principalmente, de Judi Dench. Ambos convivem em profunda oposição: pelos modos de agir, pensar e encarar a vida. Entretanto a química entre ambos é excelente, gerando uma relação de amizade e apreço por parte do espectador que certamente é algo difícil de se criar.

    Suas personalidades são construídas de forma indireta e bem realizada, a partir de diversas situações comuns, porém de fácil percepção até para o espectador mais desatento. Evita, assim, resvalar em narrações desnecessárias ou diálogos que explicitem tudo. Cenas como a do café da manhã no hotel são básicas, porém de importante força narrativa e ajudam a aprofundar ainda mais a essência da dupla principal.

    Na verdade, o foco do filme nunca fica preso à busca pelo filho perdido - essa situação até se resolve rapidamente -, o longa busca, sim, trazer à tona vários outros temas importantes e, o mais importante, criar uma personagem densa e poderosa (Philomena). Uma passagem muito bem construída por situações como homofobia, anticlericalismo e crimes da Igreja Católica.

    Sem cair no melodrama, "Philomena" é um drama poderoso. Alicerceado em seus personagens contrastantes e densos, além de suas discussões políticas e religiosas que fluem muito bem durante o longa. É um filme delicioso, simples e que certamente cairá nas graças do grande público. E merece isso.

Nota 8/10

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ernest & Célestine


    Em meio a esse período turbulento de entressafra nas animações americanas, é um grande alívio encontrar uma animação francesa tão simples, mas ao mesmo tempo apaixonante. É um típico buddy movie, mas feito com tanta qualidade e atenção aos detalhes que não tem como não achá-lo uma obra maravilhosa.

    O enredo é sobre a estranha amizade entre uma jovem ratinha, Célestine, e um urso, Ernest. Célestine vive no subsolo, junto dos outros ratos, em uma espécie de orfanato e sonha em ser desenhista. Já Ernest é um urso pobre, que vive isolado numa floresta e busca seu sustento como músico de rua - o que não é bem visto na tradicional sociedade dos ursos -.

    Os caminhos de ambos se cruzam quando Célestine fica presa em uma lata de lixo durante um de seus passeios noturnos pela cidade dos ursos e é Ernest quem a encontra. Nasce ali uma amizade impossível: para os ursos, os ratos eram criaturinhas nojentas que deveriam habitar o subsolo e manter-se longe; para os ratos, os ursos eram bichos perigosos e truculentos que não hesitariam em comê-los vivos.

   Pode-se ver que a história é simples e batida, mas sua construção é tão bela e bem feita que nem dá para ligar para isso. A amizade entre ambos é construída aos poucos, sem sobressaltos. Além disso, a animação é tão maravilhosa - toda feita em aquarelas - que não tem como não se apaixonar. Um desenho colorido e em alguns momentos até lírico - como nos momentos em que ambos tem pesadelos -.

    Ademais, por trás de tudo, a trama também guarda uma interessante crítica social, pois mesmo quando Ernest e Célestine começam a morar juntos, a ratinha também vive na "parte inferior", ou seja, no porão. Com o passar do tempo, e o crescimento do afeto entre os dois, essa barreira de superioridade e preconceito se quebra. Numa lição de moral bacana para crianças e nada forçada pelo roteiro - na verdade, ela nem é tão óbvia assim -.

    Por fim, "Ernest e Célestine" é uma animação bem simples e de baixas pretensões, mas surpreendentemente bela e tocante. Sua simplicidade fica escancarada em seu final, que cai no lugar-comum e se torna até bobo. Mas é um conto tão bonitinho e com cenas tão maravilhosas, a partir de suas aquarelas deslumbrantes, que certamente tem lugar entre as melhores animações do ano.

Nota 8/10

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Grande Beleza


    "A Grande Beleza" é um filme contemplativo. Não muito fácil de se assistir também, é verdade. Pela própria intenção de Paolo Sorrentino com sua obra, não poderia ser um filme de estrutura narrativa comum, posto que não possui uma linha única em sua história. Se trata de um filme de situações, em que o todo não forma uma sequência narrativa totalmente amarrada em si, mas sim um mosaico de fatos, reflexões e simbolismos.

    Sorrentino busca, através dos olhos de um já sexagenário escritor, construir um retrato da sociedade italiana contemporânea. Reservados os devidos momentos políticos e sociais distintos, se aproxima muito do cinema de Federico Fellini - o que sempre é lembrado e relembrado nos textos por aí sobre o filme -. Logo em seus primeiros momentos o longa já deixa claro que os tempos são outros, quando durante a festa de aniversário de 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo, de "As Consequências do Amor"), o protagonista, vemos uma alta sociedade envelhecida e deslocada.

    Construída com eficácia pelo roteiro do próprio Sorrentino acompanhado de Umberto Contarello, essa viagem analítica em meio às disfunções e futilidades que permeiam a sociedade italiana se mostra extremamente competente em cumprir seu objetivo de contemplação, adoração e julgamento - tudo ao mesmo tempo -. É um misto de passeio turístico com crítica social e viagem pela arte romana, espalhado pelas 2h20 de duração do longa (que poderia, sim, ser menor sem perder força - Sorrentino pecou pelo excesso -).

    Além disso, o filme se destaca também por sua parte técnica. A direção do italiano é competente e - apoiada na belíssima fotografia -, traz um excelente trabalho de câmera, que amplia os horizontes do filme e o engradece ainda mais. Os créditos finais, acompanhados de um tour turístico pela capital italiana demonstram bem as belas imagens que "A Grande Beleza" (hum...) nos proporciona.

    Após toda a jornada e passadas quase duas horas de sua duração, o longa chega a outro de seus problemas: os sucessivos "finais-que-não-são-finais-só-parecem-ser-finais". São diversas cenas que perfeitamente serviriam como fechamento de tudo aquilo, mas Sorrentino parecia querer mais. Claro, há muita a coisa a se dizer num filme deste tipo, que não se prende a uma estrutura simples e se horizontaliza. Entretanto o espectador, já até um pouco cansado e atordoado - não é um filme fácil, eu disse -, não está mais tão arrebatado pela jornada.

    Em uma visão geral, "A Grande Beleza" é um grande filme, extremamente bem executado e que cumpre suas enormes pretensões com particular maestria e elegância. Os deslizes, causados pelo excesso, seja na duração, seja pela demora para o seu desfecho; se mostram bem menores quando comparados à realização de Paolo Sorrentino.

Nota 8/10


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Caça



    Thomas Vinterberg, diretor de "A Caça", foi o criador do movimento Dogma 95, junto de Lars Von Trier. Para quem não sabe, ele é constituído por dez regras cinematográficas que tinham como objetivo resgatar a essência do cinema, colocando restrições quanto ao uso de tecnologias nos filmes. Por exemplo, impõe-se o uso da câmera na mão, a não-utilização de iluminação artificial e a proibição de ações "superficiais" na história, ou seja, tudo que ali ocorrer deve ser totalmente real - ou seja, se quiser uma ação x aconteça, ela tem que ocorrer fisicamente (sem montagens) -.

    É interessante notar como tanto Von Trier quanto Vinterberg já se afastaram um pouco das diretrizes do Dogma 95. Ambos fizeram apenas um filme cada que se encaixasse totalmente nele: "Os Idiotas" e "Festa de Família", respectivamente. No seguimento de suas carreiras, apesar de manter o estilo narrativo focado em personagens, suas técnicas cinematográficas foram sendo ampliadas. Notamos, hoje, com os lançamentos "Ninfomaníaca" e "A Caça" que câmera exclusivamente na mão e luz somente natural são coisas deixadas de lado.

    Mas, curiosidades de lado, vamos falar sobre "A Caça", porque é para isso este texto. O longa dinamarquês parece ter sido o retorno à glória de Vinterberg, já que desde "Festa de Família" ele não obteve tanto reconhecimento de público e crítica. E, sim, o reconhecimento é merecido. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e também ao Globo de Ouro, o filme conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, de "007: Cassino Royale"), um professor de jardim de infância, que tem sua vida transformada em um inferno quando toda a cidade se volta contra ele devido a uma acusação infundada.

    Klara (Annika Wedderkopp), uma de suas alunas e filha de seu melhor amigo, acaba por construir um afeto "excessivo" em relação a Lucas e, quando este a rejeita, a menina fica profundamente triste. A fraqueza emocional de uma criança tão pequena, então, faz a diferença e a garota - repetindo algo que ouvira do seu irmão - diz à diretora do colégio que Lucas mostrou a ela seu órgão genital. É o início da via crucis do professor. De um homem cheio de amigos, que obteve a guarda do filho e reencontrava o amor em uma de suas colegas de trabalho; a acusado injustamente de um crime que não cometeu, linchado socialmente e afastado do filho.

    O espectador onisciente, que sabe toda a verdade, vira cúmplice do sofrimento deste homem e dos males do pré-julgamento. O roteiro, assinado por Vinterberg ao lado de Tobias Lindholm, é eficiente em mostrar a crescente tensão presente na história - muito apoiado também, é claro, no trabalho de direção do dinamarquês. Desde os primeiros momentos, quando a acusação vai tomando forma e as pessoas começam a virar as costas para Lucas; até o momento de quase total esgotamento mental e abandono social em que o professor é colocado - apenas seu filho e um amigo se mantém ao seu lado -. É chocante e deixa o espectador absolutamente angustiado.

    Além disso, muita da força de "A Caça" reside nas atuações de seu elenco. Annika Wedderkopp, intérprete de Klara, é extremamente competente, numa personagem difícil. Mas o grande destaque é Mads Mikkelsen. Numa interpretação extremamente contida, Mikkelsen impulsiona seu personagem, ampliando cada momento de dor e sofrimento, numa interpretação feita nos mínimos detalhes e que explode em uma das cenas finais - numa igreja -. É a melhor cena do filme e muito por causa do trabalho do ator.

    Na parte técnica, há de se mencionar a brilhante fotografia de Charlotte Bruus Christensen, que caminha junto à história do filme, e vai reduzindo as cores quentes e a "alegria" conforme a evolução da situação de Lucas. Também se destaca a montagem, que torna o filme ágil, porém contemplativo, na medida certa - nenhuma cena é longa ou curta demais -.

    Finalmente, dois comentários sobre o final do filme (se não o viu, não leia este parágrafo): muitos reclamaram sobre Lucas e o povo da cidade voltarem a conviver em harmonia e nisto não vi problema nenhum, posto que ele era inocente, oras; outros reclamaram do final dúbio (ou não), em que o professor supostamente quase é atingido por uma bala. Para mim, se trata de um justo lembrete de Vinterberg: mesmo declarado inocente, aquela acusação caminharia com Lucas pelo resto de sua vida, assim como a desconfiança.

Nota 8/10

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Crítica - Ninfomaníaca: Volume 1


    Muito se falou neste filme antes de seu lançamento. Criou-se toda uma expectativa em torno dele. É até estranho notar que mesmo pessoas que não são muito ligadas ao mundo do cinema já ouviram falar do longa (e inclusive pretendem assisti-lo). Quando seu diretor, Lars Von Trier, que já não é nem um pouco alheio à polêmica, anunciou que faria um filme sobre uma ninfomaníaca, a curiosidade foi instantânea. Von Trier já é conhecido pelos cinéfilos como um diretor despudorado e que tem como característica de seus filmes o fato de estes serem, em grande parte, chocantes (e nisso há quem veja uma qualidade ou um defeito).

    De "Dogville" à "Melancolia", passando por "Dançando no Escuro", "Anticristo" e "Manderlay" - isso para citar seus longas mais conhecidos -, Von Trier sempre mostrou seu cinema de forma clara e sem pudor, o que - querendo ou não - sempre gerou polêmica em meio aos espectadores (nós não estamos exatamente acostumados a ver órgãos genitais ou cenas de sexo em close nas sessões de cinema por aí, né?). Um filme sobre uma ninfomaníaca parecia uma carta branca para Von Trier fazer todas as suas estripulias e ainda ampliá-las. Mas eis que ele nos surpreende novamente.

    Talvez, é claro, esta nossa análise esteja deveras prejudicada pela censura que o filme sofreu em sua fase de produção (cerca de uma hora do filme foi cortada) e pela divisão em dois volumes (o segundo sai em março, no Brasil). Entretanto, é o material que recebemos - e é o material que Von Trier aceitou entregar -. E ele, nem de longe, é seu material mais chocante ou polêmico (este posto ainda pertence a "Anticristo", com toda a certeza). Na verdade, se trata de um filme bem-comportado, em que tudo na tela se mostra justificável pela trama e nada excessivo.

    No longa, Joe (Charlotte Gainsbourg, de "21 Gramas") é uma mulher de 50 anos que é resgatada da rua por Seligman (Stellan Skarsgård, de "Thor"). Ao observar o estado deplorável em que a mulher se encontra, o homem se interessa por saber o que houve com ela. A partir daí, Joe começa a contar suas experiências a ele. Neste primeiro volume, ela ainda é uma jovem (interpretada pela estreante Stacy Martin) e sua ninfomania começa a ser delineada, desde a perda de sua virgindade até o momento em que ela chega a transar com dez homens por noite.

    Um dos principais méritos narrativos do filme é conseguir colocar uma certa leveza ao tema, que por si só já é tão pesado. "Ninfomaníaca" é um dos filmes mais bem-humorados do diretor dinamarquês e chega a ser impressionante a quantidade de momentos em que todo o público da sala de exibição ri. Isso, aliado aos roteiros já normalmente envolventes e bem estruturados de Von Trier, atrai o espectador. Maior evidência disso é a decepção quando o filme subitamente termina, posto que teremos que esperar dois meses para descobrirmos o que houve com Joe para que ela chegasse ao fundo do poço onde está. São duas horas de filme que passam muito rápido.

    Não se pode deixar de mencionar, claro, outros grandes destaques do filme: a direção precisa de Von Trier - que desta vez faz uso de uma câmera bem mais "fixa", o que até causa estranheza aos já habituados às típicas chacoalhadas na imagem geradas pelo uso da câmera na mão -; a excelente direção de fotografia de Manuel Alberto Claro; as ótimas atuações (até Shia LaBeouf está bem), com ênfase no excelente trabalho da estreante Stacy Martin e de Uma Thurman que, em uma única cena, faz a melhor atuação de toda a sua carreira.

    Todavia, "Ninfomaníaca" possui um problema que praticamente não é culpa do filme: é uma mera introdução, uma obra incompleta. A sensação de que está faltando alguma coisa é latente ao fim da sessão e mesmo em outras obras que já foram divididas em partes, como o último filme da franquia "Harry Potter", isso não apareceu de forma tão forte. O fim abrupto do longa representa muito bem isso e demonstra como foi um grande erro dividi-lo. A ninfomania de Joe aqui é apenas apresentada, delineada, como se fosse um esboço; e quando parecia que entraríamos com mais profundidade naquela personagem (pois é isto que "Ninfomaníaca" é: um estudo de personagem), o longa termina.

    É decepcionante, claro, mas não tira de forma nenhuma a eficiência do longa e sua qualidade narrativa e técnica. Fica até difícil mensurar uma nota ao filme, posto que nada mais é do que uma introdução - maravilhosamente bem realizada, é verdade -, mas ainda uma introdução. Talvez a ansiedade em que estou pelo segundo volume, seja o maior elogio que eu possa fazer a "Ninfomaníaca" e um atestado de sua competência.

Nota 8/10

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Crítica - Os Descendentes


    Alexander Payne é um diretor e roteirista que possui um estilo único. Seu modo de mesclar drama, comédia e dilaceração de um protagonista é invejável. Tanto em ''Sideways - Entre Umas e Outras'', quanto em ''As Confissões de Schmidt''; esses meio são bem explorados e em ''Os Descendentes'', essa configuração não se altera.
    
    O personagem a ser dissecado - e que está no caminho da auto-descoberta - é Matt King (George Clooney), um proprietário de terras, herdeiro da 'família real' havaiana, que viaja pela sua terra natal em busca do amante de sua mulher, a qual está em coma - próxima à morte já anunciada pelos médicos -. Nesse misto de dor pela perda iminente da esposa e pela traição recém-descoberta, Matt tem também que aprender a conviver com as suas duas filhas: a rebelde adolescente Alexandra (Shailene Woodley) e a pequena Scottie (Amara Miller). A jornada em busca do tal amante, por fim, se torna uma jornada para a auto-descoberta e para a união de uma família tão afastada ou, como o próprio protagonista diz, semelhante ao Havaí e suas diversas ilhas, uma longe da outra.


    Uma sub-trama interessante do longa também ilustra isso: os primos de Matt vivem todos separados uns dos outros, portanto, cada um em sua ilha - ilhas essas que o protagonista já não consegue (ou se esforça para) juntar. É o conceito de família despedaçado. ''Temos o mesmo sangue, porém só nos damos à honra de conversar quando é sobre dinheiro''. Todo esse contexto passa quase despercebido durante o filme, o que é uma pena.


    Falando nas sub-tramas de ''Os Descendentes'': ele possui muitas. Como o 'namorado' da filha mais velha de Matt - totalmente dispensável-, que só aparece para causar risos (ou vergonha alheia) e para passar uma lição de moral bem barata lá para o final. Outra delas é a do sogro do personagem de Clooney, indignado pela perda da filha e que culpa seu genro a todo instante pelo que aconteceu a ela - só serve para balançar ainda mais a frágil estrutura familiar dali -. Dá para mencionar também o ambiente familiar de Brian Speer (Matthew Lillard), o amante, que é mais importante e bem-desenvolvido do que as outras acima e que acaba por nos surpreender com boas performances do próprio Matthew e de Judy Greer (principal e estranhamente).


    Falando das interpretações, o grande destaque é mesmo George Clooney - não que esteja arrasador -, todavia está eficiente e brilha em diversos momentos. Também dá para lembrar de Shailene Woodley, que é uma boa surpresa em uma atuação segura. Os já citados Matthew e Judy também dão credibilidade ao elenco.


    A adaptação de Payne para o romance de Kaui Hart Hemmings não deixa de ser eficiente, não deixa de ser interessante, não deixa de ser reflexiva... Mas, diferentemente do ponto de vista dele apenas como filme, fica a decepção pelo fato do diretor já ter feito melhor com essa estrutura de história. A nota é mais pelo ponto de vista cru mesmo: a visão de um drama quase depressivo, que nos encanta pelo bom humor e pela análise humana notável.     Nota: 8/10


P.S.: É legal lembrar que, em um outro filme ambientado no Havaí, fomos introduzidos à frase ''Ohana quer dizer família. E família quer dizer nunca abandonar ou esquecer''.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Crítica - O Artista



    ''O Artista'' pode ser visto - e analisado - de muitas formas. No senso comum, um filme em P&B e mudo é o cúmulo da chatice; para outros é a nostalgia. É claro que existem outros pontos de vista, mas, no fim das contas, quase todo mundo acaba se agarrando à alguma dessas duas visões. Portanto, é razoável dizer que aqueles que se prestem a assistir a esse longa possuem uma aceitação cinematográfica mais 'abrangente' e pertencem ao segundo grupo de pessoas que citei. Levando isso em consideração, as análises do filme apareceriam de três formas: ''é ruim, e por tentar ser uma homenagem se enfraquece mais'', ''é sem personalidade por homenagear 'demais''' ou ''é excelente e ser uma homenagem realça-o ainda mais''. Tendo a ficar com a terceira forma.


    O filme, dirigido por Michel Hazanavicius, percorreu uma longa estrada desde o Festival de Cannes até as suas dez indicações no Oscar. Nessa entrada, acumulou excelentes críticas e o favoritismo para a premiação da Academia, o que é perfeitamente justificável: se trata de uma obra que se encaixa muito bem no contexto das premiações. Uma homenagem ao cinema mudo, praticamente esquecido com a chegada do som nos anos 20. Uma homenagem que há muito tempo não vinha. 


    A história não deixa de ser um 'remendo' de ''Cantando na Chuva'' com ''Crepúsculo dos Deuses'': George Valentin (Jean Dujardin) é um famosíssimo ator que cai no total esquecimento com a chegada do som à sua produtora, no fim dos anos 20. Em contraponto, Peppy Miller (Bérénice Bejo) vê sua carreira deslanchar após trabalhar em um dos últimos filmes de George. Essa oposição de situações 'fracasso/sucesso' é muito bem utilizada por Hazanavicius: em uma cena, ele desce a escada de um prédio, enquanto ela sobe; ele se senta no lado mais 'escuro' do restaurante, e ela no mais 'claro; além da óbvia situação de o novo filme dela ter filas na porta e o dele ser apresentando num cinema quase vazio.


    Uma das principais qualidades do filme é a forma como encara sua situação de homenagem e retrato cômico da época; e como impõe isso inteligentemente na sua estrutura. A já 'clichê de todas as críticas' cena inicial em que nos é mostrado um dos filmes de George, em que ele - capturado pelo vilão - diz: ''Não vou falar!'' (referência a algo do tipo: esse filme é mudo, sim!); o minúsculo papel de Malcolm McDowell (o Alex, de Laranja Mecânica), denunciando o esquecimento dos outrora grandes atores; o nome de Peppy crescendo aos poucos nos créditos de cada filme seu, entre outros exemplos. Estrutura brilhantemente dirigida e roteirizada por Hazanavicius.


    Além disso, ''O Artista'' se apóia nas boas atuações de seus atores, destacando o expressivo Jean Dujardin e a eficiente Bérénice Bejo. Desconhecidos, porém bons nomes. Outros pontos positivos são os mais técnicos, como Figurino e Direção de Arte que reconstroem bem o ambiente da época. A Trilha Sonora (é ela quem anda de mãos dadas conosco durante a mudez do longa), que pontua com mais uma homenagem ao usar a trilha de ''Um Corpo que Cai'', também se destaca - tal qual sua ausência, em um momento chave.


    É uma grande homenagem, porém por si só ''O Artista'' já é um ótimo filme, que brilha em diversos pontos. Mais um deles, e que também merece recordação, é o pequeno cachorro de George, responsável pelas melhores cenas cômicas. Por fim, depois de tanta nostalgia, a boa cena final passa o traço e encerra o filme. Encerra um culto à imagem sobreposta ao som, à pirotecnia. Não que não seja 'bom' termos os efeitos especiais atuais, porém é divertido relembrar às vezes da qualidade do cinema em suas origens.    Nota: 8/10

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Crítica - Super 8


    ''Super 8'' é a nostalgia em sua pura essência. Nostalgia que não será completamente compreendida pela geração atual (me incluo aí), entretanto está presente. As matinês das décadas de 70 e 80, protagonistas do cinemão norte-americano na época, com filmes como ''Os Goonies'', ''Contatos Imediatos de Terceiro Grau'', ''E.T.'', ''De Volta Para o Futuro'', a trilogia de Indiana Jones... Longas do gênero aventura, que apresentam uma diversão descompromissada e focada no público mais jovem; aqui ganham uma digníssima homenagem.


    E, é importante lembrar, desses nomes que aí citei, apenas o quarto não tem a assinatura de Steven Spielberg, seja na direção ou na produção. Em ''Super 8'', dirigido por J. J. Abrams, o mestre dos blockbusters está na produção. Aqui, a história parece uma mistura das várias obras anteriores: um grupo de jovens que estava produzindo um filme caseiro presencia um acidente entre um trem de carga e um caminhão. A partir daí, após uma série de desaparecimentos e com a presença suspeita do exército americano no local, eles começam a se envolver mais na misteriosa trama por trás daquele trem.


    Exterior à trama principal do acidente, há o desenvolvimento dos personagens adolescentes do filme: Joe (Joel Courtney), um menino que acaba de perder a mãe e sofre com a falta de tato do pai; Alice (Elle Fanning, a irmã mais talentosa ainda de Dakota), filha de uma inimizade do pai do garoto; Charles (Riley Griffiths), o ''cineasta'' e melhor amigo de Joe... e por aí vai. E o relacionamento entre os adolescentes é o principal destaque do longa, tal qual as cenas de preparação para as filmagens e delas em si. É difícil não se encantar com a interação ali, ainda mais entre o 'casal' Joe e Alice.


    Se isso destaca o filme (além dos ótimos efeitos especiais, o que já era esperado), é excelente que a maior parte do longa se foque nisso. São as partes que mais divertem e que o tornam um dos melhores do ano. Porém, se o filme funciona nesses momentos, quando se foca em ficção científica, cai. As cenas que envolvem a criatura misteriosa que assombra a cidade ficam um ponto abaixo em qualidade (principalmente a da caverna, escura e sub-aproveitada), o que se configura como uma baita decepção. 


     Toda a atmosfera foi criada, o elenco jovem dando um show... e o clímax mesmo não faz jus a tudo. Parece que o filme se perde exatamente quando procura sua própria identidade, deixando de lado referências, e se torna muito mais uma obra de Abrams do que de Spielberg. Isso sem citar o final (brega), que destoa do desenvolvimento nivelado visto anteriormente. Apesar disso, só a qualidade de tudo que veio antes e a vontade de que o longa não acabasse, que tivessem mais cenas entre os adolescentes... Só isso, já o torna inesquecível e bem acima da média.      Nota 8/10

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Crítica - Tudo Pelo Poder



    George Clooney é conhecidíssimo entre o público pelo seu lado ator, com participações por exemplo na série ''ER'' e no filme ''Onze Homens e um Segredo''. Entretanto, ele também dá as cartas como diretor (e roteirista) de tempos em tempos, realizando, por exemplo, o bom ''Boa Noite e Boa Sorte'', em 2005. Seu último filme como diretor, ''O Amor Não Tem Regras'', pode ter sido fraco, todavia ele parece ter voltado à qualidade com ''Tudo Pelo Poder'' (e também às indicações a premiações, como pelo filme de 2005).


    O cenário dessa vez é a política norte-americana, que se nunca deixa de ser exatamente ''atual'', se mostra mais importante nos últimos tempos devido à crise econômica. O ponto de vista é o do jovem assessor de imprensa Stephen Myers (Ryan Gosling), que trabalha para um dos candidatos democratas à presidência, Mike Morris (George Clooney). Stephen não só promove a campanha de Mike, como também acredita que certamente ele, caso eleito, mudará o seu país para melhor: além de funcionário, é, portanto, um eleitor esperançoso do candidato.


    Porém, toda essa crença de Stephen se desconstrói aos poucos, enquanto ele vai descobrindo os planos de seu candidato (e de seu adversário), além das próprias armações existentes dentro do comitê de Mike. Uma das coisas que diferencia o filme é que ele mostra o embate entre dois candidatos democratas durante a prévia de seu partido para a presidência. A teórica unidade política que deveria existir é praticamente nula, se assemelhando ao conflito contra os rivais republicanos. Não que isso seja exatamente original ou desconhecido do público, mas faz pensar: se há tudo isso durante prévias partidárias, quão sujos são os bastidores do duelo principal pela presidência?


    As armadilhas estão por toda parte, dentro da sua candidatura, da rival, colocadas pela imprensa... E Stephen, mesmo não sendo ingênuo, parecia acreditar que não andava em um campo tão espinhoso: mesmo estrategista, não deixava de ser um gentleman e sincero (Morris perguntar suas chances em certo estado a ele, e não a outro assistente superior, por saber que ele diria quais eram elas exatamente, ilustra bem). Se no começo do filme essa era a sua diferença em relação ao personagem de Philip Seymour Hoffman, Paul Zara, também assistente de Morris; as suas semelhanças com o tal parecem se realçar a cada minuto passado do longa. Isso para não compará-lo a Tom Duffy, interpretado por Paul Giamatti, estrategista do candidato adversário.


    Por falar em tantos atores, as interpretações, de modo geral, estão ótimas. Philip Seymour Hoffman é um grande ator, e mostra isso aqui também; Paul Giamatti, idem; George Clooney dá o charme necessário ao seu candidato Morris, bem correto; Evan Rachel Wood dá veracidade à sua personagem, a estagiária Molly; e Marisa Tomei é eficiente como a jornalista Ida. Entretanto, o grande destaque é Ryan Gosling, que leva o difícil personagem Stephen muito bem, levando a desconstrução dele a um nível ainda mais forte.


    O roteiro escrito por Grant Heslov e Clooney é maravilhoso, cheio de camadas e de críticas, desde as mais básicas e visíveis colocadas na trama central, até as que para melhor entendimento é necessário saber um pouco sobre política americana, como a sub-trama da personagem Molly: muito importante para a história e sua resolução, mas que pode parecer superficial para quem não sabe o ponto de vista democrata para o que estava ocorrendo. A direção de Clooney também é segura, guardando algumas sequências belíssimas e tomadas eficazes.


    Um filme corretíssimo, aparentemente merecedor das quatro indicações ao Globo de Ouro e de seu certo favoritismo a algumas também no Oscar (Ryan Gosling, por favor!). Um retrato interessante, poderoso e eficaz da política e que parece que elevará Clooney à promissor diretor novamente.         Nota: 8/10


 P.S.: Para quem gosta da série ''24 Horas'', uma participação especial de Gregory Itzin (o Charles Logan do seriado) é mais do que especial e ''irônica''. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Crítica - A Viagem de Chihiro

 
    No Oscar de 2001 muitos se surpreenderam com uma animação japonesa sendo indicada (e ganhando) o prêmio de Melhor Filme de Animação, superando os longas lançados pelos grandes estúdios ocidentais: Pixar, Disney e DreamWorks. E a partir daí o nome de Hayao Miyazaki e de seu estúdio Ghibli, antes desconhecidos no Ocidente, viraram celebridades no mundo do cinema. E a ''culpa'' de tudo isso é do magnífico ''A Viagem de Chihiro'' (Sen to Chihiro no kamikakushi, 2001).

    Tudo começa com a mimada e amedrontada Chihiro, que está se mudando de cidade, junto de seus pais. Durante a viagem, eles acabam se perdendo e encontram uma espécie de parque de diversões abandonado. Ao explorarem o local, encontram um restaurante, também deserto, porém repleto de comida, e enquanto os seus pais comiam o que tinha ali, Chihiro explorava um pouco mais o local. E aí começa a incursão da garota num mágico e perigoso mundo, que apenas revela sua existência durante a noite.

    Seus pais acabam transformados em porcos, por comerem aquilo, e a menina, ajudada pelo jovem Haku, consegue convencer a megera Yubaba, uma bruxa que comanda aquele ''mundo'', a permitir que ela trabalhe lá, dentro de uma casa de banhos que lá existe. E então, ela começa uma jornada arriscada para salvar seus pais e sair daquele lugar.

    O encanto para com o filme já começa com o deslumbre visual que ele proporciona, uma mistura da cultura japonesa com a criatividade do diretor, que nos mostra um mundo lindo e particular: com bebês gigantes, bruxas com a cabeça maior do que o corpo de um homem, espíritos e dragões. E tudo fica ainda maior com o colorido exagerado (de um jeito bom) que compõe o ambiente do filme, quase todo feito à mão, com pincéis. Enfim, posso continuar falando mil linhas sobre o visual da obra que não conseguirei exemplificar sua beleza completamente.

    E isso tudo ainda se alia à uma brilhante trilha sonora, com canções extremamente emocionantes, e à um roteiro metafórico escrito por Miyazaki. Um roteiro que reúne desde críticas ao capitalismo humano (com o monstro sem face, que de ingênuo no começo, ao entrar na casa de banho se torna um monstro; além da óbvia obsessão por ouro dos personagens), até à falta de identidade (quando Yubaba rouba o nome de Chihiro, que passa a se chamar Sen) e objetivos do homem (Chihiro, ao contrário dos outros trabalhadores, não se mostra satisfeita e quer fugir do local).

    Pode parecer que o filme se perde em alguns momentos, em meio a tantos simbolismos e histórias, e isso realmente acontece durante algum tempo na metade do longa. Entretanto isso não retira nenhum dos méritos de Miyazaki em criar um filme corajoso, belo e adulto; o que ainda não era um costume das animações no início da década.
Nota: 8/10

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Crítica - Harry Potter 7.2

 
    Quando foi anunciado, em 2006, após o quarto filme, que um diretor que só tinha no currículo um filme para TV levaria a saga até o seu final, fiquei receoso. Um receio que aumentou ainda mais após o confuso, irregular e problemático quinto filme. Parecia que a série manteria ''Prisioneiro de Azkaban'', de 2004, como seu melhor momento e que ninguém havia aprendido nada com a guinada ''dark side'' que Alfonso Cuarón havia dado ao terceiro longa, muito mais intenso e poderoso, mesmo contando com a história mais fraca de todos (''culpa'' do livro, que é o menos ''importante'').
    Entretanto, veio a surpresa ''Enigma do Príncipe''. David Yates mostrou que possuía suas qualidades e trouxe um fator que mudaria o rumo da saga: um certo realismo. Sim, realismo em um filme de bruxos cheio de criaturas exóticas. Tudo ganhou um lado humano e a adolescência (e seus problemas) ganham um bom espaço, naquele que era o filme mais sombrio (bendita Fotografia linda!) e com maior ''valor cinematográfico'' de toda a série até então, junto do terceiro filme. E então, só faltavam mais dois longas, e a projeção era de puro crescimento na qualidade.
    E isso realmente ocorreu, a primeira parte de ''Relíquias da Morte'' foi um filme poderoso. A parte técnica nunca havia sido tão eficiente. Trilha, fotografia, efeitos especiais, direção de arte e até mesmo a direção em si. Os personagens estavam mais aprofundados e era o filme mais artístico de todos, com comparações diretas à regimes totalitários, como o nazismo, sendo ainda melhor desenvolvidas que nos livros. Um excelente show de abertura para o maior acontecimento do cinema nos últimos tempos: o fim da franquia.
    O acontecimento realmente veio, e com força. O filme... deixou a desejar. Não que ele não seja bom. É ótimo! O terceiro melhor de toda a saga. Mas com tudo que tinha nas mãos, Yates ofereceu pouco. A parte técnica é, mais uma vez, deslumbrante. A fotografia de Eduardo Serra é novamente bela, a trilha de Alexandre Desplat dá todo o tom épico (ou dramático, quando preciso) e os efeitos especiais, enfim, esses já são elogio marcado.
    Todo o começo do filme é espetacular, desde as cenas no Chalé das Conchas, realmente bem escritas por Steve Kloves (que cresceu muito desde o primeiro filme), até a extraordinária sequência em Gringotes, perfeita nos mínimos detalhes. Mas a partir daí, o filme falha ao dar o tom épico. A batalha de Hogwarts é sub-aproveitada. Há cenas lindas como a do escudo da escola, a fuga de Snape e os ''momentos'' da Professora McGonagall. Entretanto, parece que esses momentos foram muito mais sentidos pelas fortes interpretações ou pelos efeitos, do que pelo que realmente estava sendo mostrado ali. Nada comparável à memorável batalha dos Campos de Pelennor, no capítulo final da trilogia ''O Senhor dos Anéis''.
    Aqui vão alguns exemplos (contém spoilers, desavisados pulem para o próximo parágrafo): a morte de Bellatrix, apressada e sem desenvolvimento algum, só foi épica devido à fala (do livro) da Sra. Weasley; o adeus à alguns personagens importantes (do ''lado bom'' da batalha) também é falho (coitados dos que não leram o livro, tiveram que decifrar que era Fred que jazia no chão); o beijo de Rony e Hermione é belamente construído e... o rosto de Rupert Grint simplesmente tapa qualquer visão do público.
    Tá, Gabriel, você só falou mal e ele é o terceiro melhor da série? É! O motivo? Algumas cenas absurdamente lindas e emocionantes, com as quais parece que houve um tratamento especial da equipe de produção, como as memórias de Snape (lindas e emocionantes em cada momento, com um tom dramático crescente), a parte final (após a cena na Floresta Proibida), o epílogo e as já anteriormente citadas no quinto parágrafo. Além de, claro, todo o trabalho impecável na técnica e o desempenho positivo de todo o elenco adulto. E, o mais importante, o já citado várias vezes ''acontecimento''. A nostalgia também engrandece o filme, e muito.
    Como filme, bom. Como acontecimento de toda uma geração, inesquecível e espetacular.       Nota: 8/10



domingo, 18 de dezembro de 2011

Crítica - O Labirinto do Fauno

 
    Guillermo del Toro é um diretor, no mínimo, diferente. Em sua filmografia constam adaptações medianas de HQ: os dois filmes sobre o anti-herói Hellboy e a segunda parte da trilogia sobre o caçador de vampiros Blade, entretanto seus filmes mais reconhecidos (e os melhores) remetem ao gênero do Terror, mesmo que não em sua completa essência. E isso também remete à enorme quantidade de filmes que ele apenas produz (no total, já foram quase trinta longas).

    Desde o seu primeiro longa, ''Cronos'', em 1993, passando pelo bom ''A Espinha do Diabo'' até o mais recente ''O Labirinto do Fauno''; todos mesclam o Drama ao Terror. E, resumindo-me às duas últimas obras citadas, também mesclam a fantasia infantil e apresentam uma criança como personagem principal. No caso de ''O Labirinto do Fauno'', ela é Ofelia (Ivana Baquero), uma menina que se muda com sua mãe para o quartel de seu padrasto, o Capitão Vidal (Sergi López), um oficial fascista que busca exterminar os rebeldes daquela região.

    A história se concentra em dois núcleos: o de Mercedes (Maribel Verdú), amiga de Ofelia, cozinheira do quartel e informante dos insurgentes, que luta para ajudá-los a derrotar os soldados do Capitão; e o da jovem garota, que descobre no jardim da mansão, um labirinto, que a leva ao encontro de um Fauno (Doug Jones), o qual lhe revela que ela é, na verdade, a princesa de um reino subterrâneo e que, para retornar lá, deve cumprir três missões.

    O filme se encaixa mais num conto de fadas adulto, dado as situações tensas e seres horríveis aos quais Ofelia entra em contato; além de, claro, o horror da Guerra Civil. Os dois focos da película, por sinal, ficaram bem equilibrados na tela, sendo ambos bem desenvolvidos pelo roteiro, obtendo um saldo bastante positivo e sem algum se sobressair quanto ao outro.

    Toda a parte técnica do filme é impecável: a direção de arte, oscarizada, é belíssima em cada detalhe; já a fotografia, também vencedora do Oscar, se encaixa perfeitamente com o tom sombrio e adulto, porém fantasioso, do filme; todavia o que mais chama a atenção é a maquiagem (uhu, Oscar de novo) que cria seres soberbos, quase reais, como o já citado Fauno e a criatura da ''sala de jantar'', de longe a mais surpreendente e tenebrosa de todo o filme.

    As interpretações também são um brilho à parte: Ivana Baquero transpõe muito bem a delicadeza de Ofelia, já Maribel Verdú faz uma atuação segura e eficiente, enquanto Sergi López encontra o tom exato para interpretar o Capitão Vidal, tragicamente odioso. Outro ator importante é Doug Jones, com um trabalho físico ótimo em seu Fauno.

    Todo o roteiro (também outro destaque na obra) se apóia na imaginação infantil, e na sua importância. E, além disso, faz um contraponto entre real e fantasioso, uma vez que Ofelia se sentia muito mais amedrontada na presença de seu padrasto do que ao lado do Fauno, mesmo o último tendo uma aparência bem menos ''agradável''. Um belo filme de Guillermo del Toro, que cresce cada vez mais como diretor, e que venha ''Pacific Rim'', em 2013.    Nota: 8/10


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crítica - Meia-Noite em Paris

 

    Aluguei ''Meia-Noite em Paris'' meio desacreditado. Woody Allen é um dos diretores mais famosos do mundo, porém nunca me conquistava. Comecei a assistir à sua filmografia por ''Vicky Cristina Barcelona''. O nome me interessou, o filme estava sendo bem-falado (sim, eu assisti na época de lançamento, quando nem sabia nem quem era, por exemplo, Stanley Kubrick). Quanto ao longa, achei um tédio. O roteiro não dá liga, a narração em off domina tempo demais da projeção e os personagens, estereótipos latinos. A opinião foi mantida mesmo após revisão.
   
    Daí veio o também elogiado ''Match Point'', um filme bonzinho, entretanto blasé. A minha terceira tentativa veio com ''Tiros na Broadway'', que talvez seja o meio termo. O filme mesmo, é fraco. Mas com tantas atuações fortes e memoráveis, é difícil dar um dislikeE então, depois de muita enrolação, desculpas e temor... Assisti à ''Meia-Noite em Paris''. E gostei.
    
    O filme conta a história de Gil (Owen Wilson, em uma, quem diria, atuação convincente), que é apaixonado por Paris e que está prestes a se casar com Inez (a sempre eficiente Rachel McAdams). A ''ação'' começa mesmo quando Gil, bêbado, resolve caminhar pela cidade e recebe um convite de dois estranhos para entrar em seu carro e ir a uma festa (é, ele aceita). Daí, por um motivo inexplicado (e, no fim, irrelevante), ele acaba sendo levado de volta aos anos 20 (época que sempre glorificou como os melhores anos da história) e encontra, na tal festa, todos os seus ídolos literários, artísticos e cinematográficos.


    São os Fitzgerald de um lado, Picasso de outro, Hemingway ali na ponta e até Buñuel. O mais notável é que esses astros não soam clichês (exceto o Dalí de Adrien Brody), mesclando o que se sabe deles por biografia com um algo a mais, uma outra visão (talvez de Allen). E é nesse enredo que mistura cinema, história e psicologia que o filme se desenvolve.

    No campo das atuações, destaque para a sempre bela e oscarizada Marion Cotillard, a também oscarizada Kathy Bates e os já citados Wilson e McAdams. O roteiro é bem-produzido, com alguns diálogos brilhantes. E Allen, isso é inegável, é um ótimo diretor e que sabe transformar Paris de bela em deslumbrante, através de sua lente. Mas o mais importante e digno de nota é a mensagem: valorize o presente e pare de querer ter vivido em outra época, porque lá, segundo Allen, eles viam suas vidas, tal qual você vê a sua: parte de uma geração inútil.


    O filme é redondinho, perfeito para a parcela do público médio e consumidor de ''arte''. O que faltou, talvez, foi um pouco de equilíbrio, um enfoque maior na comédia (gênero de todos os filmes dele e que, dessa vez, ficou devendo) e, principalmente, coragem. Uma ideia tão inspirada poderia ter rendido algo ainda maior, Allen quis apenas entreter, fazer ''arte''. Com um pouco mais de força teria criado, quem sabe, um clássico do novo milênio, e não um bom coadjuvante.    Nota: 8/10

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Crítica - Coraline e o Mundo Secreto

    
   Henry Selick é dos diretores mais competentes de Hollywood atualmente. E isso já foi demonstrado logo em seu primeiro filme, ''O Estranho Mundo de Jack'' (The Nightmare Before Christmas, 1993), que encantou o mundo com seu apuro técnico e beleza visual. Depois disso, veio o bom ''James e o Pêssego Gigante'' (James and the Giant Peach, 1996) e o dispensável e pouco conhecido ''Monkeybone - No Limite da Imaginação'' (Monkeybone, 2001). Confesso que achei que a carreira do diretor estava fadada ao fracasso e esquecimento depois deste filme. Ainda bem que estava errado, eis que nasce ''Coraline e o Mundo Secreto'', adaptação do livro de Neil Gaiman * (Coraline, 2009).
   
   Só pela sinopse já se sabe que não se trata de um filme qualquer e que viria coisa boa por aí: Coraline Jones (dublada por Dakota Fanning) é uma menina de onze anos, que acaba de se mudar para uma nova casa, distante de seus antigos amigos, a Mansão Cor de Rosa, situada em um isolado vale no Oregon. Como se não bastasse a solidão causada por isso, seus pais não lhe dão qualquer atenção, uma vez que estão sempre trabalhando. Porém, a garota possui espírito explorador e acaba encontrando, em sua casa, uma passagem para um mundo alternativo e aparentemente perfeito, onde seus pais são atenciosos, os vizinhos super-simpáticos, enfim, tudo é lindo e utópico.
   
   Tá, né, uma animação, com um mundo bonitinho e florido... Ok, bem infantil, né? Claro que não! É um filme do Selick e, aqui, o público alvo é, majoritariamente, o adulto. O enredo começa a tomar rumos assustadores, nada próximo ao divertido e leve mundo alternativo de ''Monstros S.A.'' (Monsters, Inc., 2001). Todos os personagens do longa são únicos e com toques de originalidade, desde as duas senhoras que moram próximas à garota, ex-estrelas do teatro, até o gato preto. Mas o que é mais impressionante é a técnica de stop-motion utilizada, praticamente não se nota que tudo ali é feito de 'massinha', é simplesmente maravilhoso! Difícil se imaginar que aquela técnica de ''A Fuga das Galinhas'' (Chicken Run, 2000) chegaria a tamanho apuro visual, se aproximando até mesmo de animações em CGI.
   
   Sim, o filme é belo visualmente, muito bem dirigido por Selick e possui um primeiro ato simplesmente apaixonante. Mas aí, deu problema. Se desde seu começo o filme se desenvolvia maravilhosamente, fugindo do lugar-comum e nos apresentando aquele mundo magnificamente, em sua resolução, ele derrapa. O filme toma uma vertente completamente diferente: parte para a correria e ação desenfreada, começando a apresentar até mesmo furos de lógica (nem o mais confiante vilão do mundo daria, quase que de graça, uma chance para a protagonista fugir de seus domínios). Cai no clichê do ''heroína fugindo da vilã/ heroína precisa encontrar aquela-coisa-importante para escapar'', o que é uma pena, para um filme tão belo visualmente e que possui toda uma primeira parte excelente.


   O que fica é um filme ótimo, mas que cai nos clichês, porém a magia da obra é tanta que, na hora de colocar na balança, você acaba até esquecendo desses problemas...      Nota: 8/10
   
   (Escrevi essa crítica à pedido do nosso amigo Zé. [palmas para o Zé] Quem quiser pedir para algum outro filme...)


* Informação lembrada por um leitor anônimo