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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Clube de Compras Dallas

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    Alguns filmes se destacam muito mais pelo o que tem a dizer do que pela sua própria realização. Problemas estruturais que se tornam quase irrelevantes pela importância da discussão que colocam. "Clube de Compras Dallas" é um exemplo destes filmes. Apesar de ter uma construção razoavelmente competente, o longa chama a atenção muito mais pelos temas trazidos de sua inspiração por fatos reais - e pelas suas duas atuações principais, claro.

    O longa conta a história de Ron Woodroof (Matthew McCounaghey, "Magic Mike"), um homem do sul dos Estados Unidos, homofóbico, misógino, preconceituoso e ignorante que é diagnosticado com HIV. Na época da história, os anos 80, o vírus da AIDS era absurdamente atrelado à homossexualidade e tinha pouquíssimas formas de tratamento. Então, quando os médicos lhe dão 30 dias de vida, Ron tenta engolir todos os seus preconceitos e busca conseguir métodos alternativos de tratamento. Surge, por fim, o Clube de Compras Dallas - uma espécie de centro clandestino de distribuição de remédios ainda não aprovados nos Estados Unidos.

    Ron, claro, não muda da água para o vinho. Sua personalidade preconceituosa repugnante - ainda bem - não simplesmente desaparece durante o longa. Não que alguém se tornar esclarecido seja ruim - claro que não! -, mas isso seria um tremendo de um clichê e quebraria todo o equilíbrio do filme. De forma alguma ele vira uma alma caridosa em prol dos necessitados, pois a distribuição dos remédios só é feita para os que compram as cotas na "sociedade". Ah, e como ele conseguiu atrair público? Se tornando sócio de uma transexual, Rayon (Jared Leto, "Réquiem Para um Sonho").

    Apesar de manter parte de seus preconceitos, a redenção de Ron se dá pela sua crescente amizade e afeto que possui por Rayon. Alguns momentos, como a cena do supermercado, mesmo que resvalem em clichês, surgem com naturalidade durante o longa. É interessante perceber como os antigos amigos de Ron, tão preconceituosos quanto este, o abandonam e acabam sendo aqueles sobre quem ele antes depositava ódio - os gays - seus apoiadores.

    A relação entre Ron e Rayon não teria um quarto da força que tem não fossem seus intérpretes. Matthew McCounaghey se firma em sua sequência de ótimas atuações na década de 2010 - "Killer Joe", "Amor Bandido", "Magic Mike"... -. Seu já típico sotaque texano, se une à entrega física e à eficiência em acompanhar as mudanças de seu personagem durante o longa, numa interpretação poderosa. Já Jared Leto ressurge para o cinema em grande forma, com uma interpretação numa vibe Ryan Gosling, dizendo muito a partir de olhares e expressões. Os dois carregam o filme.

     A montagem da obra é irregular, gerando tanto momentos excelentes quanto criando situações aceleradas demais, que talvez demandassem mais calma na abordagem. A passagem do tempo é o maior exemplo disso - uma vez que os 30 dias de Ron viraram anos -, por vezes vira um amontoado de cenas em velocidade de cruzeiro, já em outras surge com grande naturalidade.

    Outra discussão colocada na roda pelo longa é sobre a indústria farmacêutica, que faz uso do desespero de pacientes em estado terminal para ter mais lucros. Entretanto esta vilanização pura e simples da medicina acaba enfraquecendo o filme. Muito disso porque aquela que seria o contraponto deste ambiente de corrupção e jogo de interesses, a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner, "Juno"), é uma das personagens mais apáticas e sem graça do ano. É quase insuportável aguentar a cara de mosca morta de Garner na tela.

    A temática gay, por sinal, não é estranha ao cineasta Jean-Marc Vallée. No excelente longa "C.R.A.Z.Y.", o diretor construiu com muita habilidade a descoberta e aceitação da homossexualidade no ambiente familiar. Aqui, mesmo que visto por um outro ângulo, o tema também não deixa de ser trabalho de forma engenhosa, sem resvalar em clichês. A sensibilidade de Vallée ao tratar do tema é sem dúvida digna de nota.

    Destacando-se mais pelas suas ideias e críticas do que como um filme propriamente dito, "Clube de Compras Dallas" se solidifica a partir de suas duas poderosas atuações masculinas. Mesmo que não seja uma obra perfeita, o saldo é muito positivo e Vallée certamente é um cineasta que merece atenção.

Nota 7/10

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Nebraska


    Alexander Payne é um diretor e roteirista que, em sua curta, porém formidável filmografia enfoca em homens comuns. Estes exemplares que partem em jornadas simples, mas que no fim revelam muito sobre eles. "Sideways", "As Confissões de Schmidt" e "Os Descendentes" são ótimos estudos de personagem, acompanhados de excelentes análises sobre a sociedade - em seus diferentes focos -. Em seu mais recente longa, "Nebraska", pela primeira vez Payne dirige um roteiro que não é de sua autoria, mas que não foge desta estrutura.

    Escrito por Bob Nelson, o roteiro conta a história de Woody (Bruce Dern, "Django Livre") e David (Will Forte, "Vizinhos Imediatos de 3º Grau"), pai e filho, que embarcam numa jornada após Woody receber uma carta dizendo que ganhou um milhão de dólares. Mesmo sabendo que se trata apenas de uma enganação e com os berros de reprovação de sua mãe, Kate (June Squibb, "Perfume de Mulher"), o filho se propõe a acompanhar o pai até a cidade onde supostamente deve retirar o prêmio. No meio do caminho, porém, David resolve reunir o pai e sua família que há tempos não se veem.

    Utilizando maravilhosamente bem a fotografia em P&B, que cumpre seu papel em criar um ambiente precisamente melancólico e desesperançoso, o longa embarca nesse road movie entre pai e filho. O reencontro de Woody com seus amigos e parentes não poderia ser pior e mais representativo em termos de prisma social. Unicamente interessados no dinheiro do suposto novo milionário, surgem débitos do passado aos montes. E os supostos momentos de união familiares são absolutamente desinteressados, com uma família que não consegue criar uma conversa minimamente decente. Homens que ficam assistindo ao jogo na TV e só trocam algumas parcas palavras para falar sobre carros.

    A construção de Nelson e Payne é eficiente na construção de sua metáfora social e quase sempre consegue desviar com habilidade da caricatura e do lugar-comum. Além de sua visão ampla sobre a família, o longa entra numa discussão próxima à vista em "As Confissões de Schmidt" sobre os efeitos da idade no ser humano. É, em última análise, um apanhado imagético sobre a vida. Tanto do ponto de vista do filho, esforçado em criar uma situação de felicidade e perseguir o sonho de seu pai que a qualquer momento pode partir; quanto do pai, que como diz a mãe "não vê o que ocorre ao seu redor metade do tempo".

    As atuações são certamente outro destaque. Bruce Dern, ganhador do prêmio de melhor ator em Cannes, está magistral e poderoso. June Squibb também está competentíssima e apaixonante no papel da "super sincera" Kate. Will Forte surpreende em uma interpretação crível e segura, assim como os demais coadjuvantes. Certamente um dos melhores elencos do ano.

     Mesclando humor e drama, como típico nas obras de Payne, o longa consegue construir uma transição eficaz entre ambos, sem se tornar irregular. Mas é certamente na sua vertente dramática que o filme guarda sua força, ao contar uma história emocionante, tocante e real. Um retrato social sincero sobre a vida e a forma como passamos por ela, com suas alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. Roteiro brilhante, direção competente, atuações magníficas e técnica eficaz alicerçam uma película memorável e simples, como nossa vã existência.

Nota: 8/10
    

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ela


    A carreira do diretor Spike Jonze inicialmente era atrelada a filmes roteirizados pelo gênio Charlie Kaufman. Ao lado dele entregou grandes obras como "Adaptação" e "Quero Ser John Malkovich", as quais guardavam boa parte da sua força no talento de Kaufman em seus roteiros inteligentes e criativos. Em 2009, então, Jonze se lançou à "carreira solo" com "Onde Vivem os Monstros", mas apenas agora com "Ela" podemos dizer que realizou um grande acerto. Aclamado pela crítica e público, o longa é uma obra densa, bela e original.

    Se passando em um futuro não muito distante, em que o ser humano adquiriu uma proximidade e contato ainda mais forte com as máquinas, o filme conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix, "O Mestre") e sua relação romântica com o sistema operacional que coordena sua vida, Samantha (voz de Scarlett Johansson, "Encontros e Desencontros"). Algo próximo de uma Siri superdesenvolvida, com sentimentos e personalidade própria e construída para contemplar todas as necessidades (todas mesmo!) de Theodore.

    Apesar da trama aparentemente fora de realidade, a construção de Jonze cria um ambiente totalmente crível. É, na verdade, uma análise sobre o sentimento humano; não uma banal comédia romântica. Jonze não se prende a limites e abarca toda uma discussão sobre a natureza do que sentimos. Contrastando com o relacionamento de Theodore e Samantha; temos diversos estágios das relações humanas. O primeiro encontro. O início. O meio. O fim. O divórcio. A dor. A desilusão. O recomeço.

     Os personagens são defendidos com absoluta competência pelo forte elenco. Joaquin Phoenix demonstra ser um dos melhores atores da atual geração, com uma interpretação sensível e real. Scarlett Johansson estranhamente toma o filme para si a partir de uma composição de voz extraordinária. A atriz consegue trazer toda a complexidade daquela criatura tecnológica unicamente pela voz. Não a vemos, mas a sentimos de forma completa. Amy Adams como Amy, amiga de Theodore, também merece destaque. Além de Olivia Wilde e Rooney Mara, em pontas interessantíssimas.

    Contando também com uma belíssima trilha sonora e uma competente direção de arte, "Ela" possui o melhor dos roteiros originais indicados ao Oscar deste ano. A transformação de um argumento interessante em realização excelente é feita com grande habilidade por Jonze, também roteirista. Mesmo que também apresente certas críticas à relação homem-máquina, seu foco não é este - e ele nem perde tempo com essa discussão já tão exaustivamente explorada -. Ao observar isso por um novo ângulo, Jonze mantém o fôlego do longa e o interesse do espectador, mesmo que lá pelas tantas de seu último ato o filme perca força e caia numa resolução convencional.

    Ainda que não tenha a força de suas parcerias com Charlie Kaufman, "Ela" serve como afirmação autoral de Jonze em sua caminhada solo. Uma interessante obra que indica mais um diretor e roteirista que merece ser observado. "Ela" é um filme belo, poderoso e que apresenta pontos de vista e discussões interessantes. Acompanhado de boas interpretações, é certamente um dos filmes da temporada de premiações que não pode deixar de ser visto.

Nota 8/10
    

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Philomena



    "Philomena" é um filme simples e que se baseia numa história real  para construir uma obra que, em sua curta duração, consegue discutir temas certamente polêmicos sem cair no sentimentalismo barato ou tentar chocar o espectador a qualquer custo. Stephen Frears ("Ligações Perigosas") cria uma trama baseada em seus atores competentíssimos e num roteiro muito bem costurado, pegando para si a função de apenas acompanhar o desenrolar de tudo, com um trabalho de câmera convencional, porém eficiente.

    Philomena (Judi Dench, "007 - Operação Skyfall"), na adolescência, engravidou de um menino, foi condenada a uma vida servil num convento e separada de seu filho, o qual foi vendido para um casal de americanos contra sua vontade. Décadas depois, ela conta com a ajuda de um jornalista desempregado (Steve Coogan, "Trovão Tropical") na busca pela criança desaparecida.

    Seria um filme comum, com gostinho de dejá vù, não fossem as excelentes subtramas costuradas pelo roteiro de Jeff Pope e do próprio Coogan. Além de, claro, as maravilhosas interpretações de Coogan e, principalmente, de Judi Dench. Ambos convivem em profunda oposição: pelos modos de agir, pensar e encarar a vida. Entretanto a química entre ambos é excelente, gerando uma relação de amizade e apreço por parte do espectador que certamente é algo difícil de se criar.

    Suas personalidades são construídas de forma indireta e bem realizada, a partir de diversas situações comuns, porém de fácil percepção até para o espectador mais desatento. Evita, assim, resvalar em narrações desnecessárias ou diálogos que explicitem tudo. Cenas como a do café da manhã no hotel são básicas, porém de importante força narrativa e ajudam a aprofundar ainda mais a essência da dupla principal.

    Na verdade, o foco do filme nunca fica preso à busca pelo filho perdido - essa situação até se resolve rapidamente -, o longa busca, sim, trazer à tona vários outros temas importantes e, o mais importante, criar uma personagem densa e poderosa (Philomena). Uma passagem muito bem construída por situações como homofobia, anticlericalismo e crimes da Igreja Católica.

    Sem cair no melodrama, "Philomena" é um drama poderoso. Alicerceado em seus personagens contrastantes e densos, além de suas discussões políticas e religiosas que fluem muito bem durante o longa. É um filme delicioso, simples e que certamente cairá nas graças do grande público. E merece isso.

Nota 8/10

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Frozen



    A adaptação do conto "A Rainha da Neve" é um sonho antigo da Disney. A origem da tentativa de trazer a história de Hans Christian Andersen ("A Pequena Sereia") às telas remonta a 1943, com investidas ocorrendo também durante as décadas de 90 e 2000. Só em 2008, quando Chris Buck - futuro diretor do longa e que já havia trabalhado com o estúdio em "Tarzan" - trouxe à mesa a sua adaptação para a trama que o projeto foi levado à frente, com o apoio de John Lasseter - diretor de "Toy Story" e homem-forte da Pixar -.

    A história é centrada em duas irmãs: Elsa e Anna. A primeira, mais velha, possui poderes especiais (algo meio Homem de Gelo, dos X-Men, na versão feminina) e está prestes a se tornar a nova rainha. Anna, a mais nova, é a personificação das princesas Disney. Devido a um acidente na infância envolvendo os poderes de Elsa, ambas se mantiveram afastadas até o fatídico dia da coroação.

    Quando, então, um novo acidente acontece e todos descobrem os poderes de Elsa, a nova rainha resolve se isolar do mundo e fugir, entretanto acaba por deixar o reino todo congelado. Cabe a Anna ir em busca de sua irmã e por um fim ao rigoroso inverno. O deslocamento de Elsa das vezes de protagonista para uma posição de coadjuvante problemática é uma das principais forças do filme.

    Não que Elsa tenha per se qualquer maldade ou algo do tipo, mas seu controle sobre o gelo alcança o posto de vilão do longa (mesmo que lá pelas tantas um plot twist dos mais sem graças e manjados tente dizer o contrário). Além disso, a rainha, em meio a seu conflito interno, é a personagem mais interessante do filme. A película é toda estruturada sobre ela, apesar de Anna ficar um tempo muito maior na tela.

    Falando em Anna, ela é a que ocupa o posto de princesa Disney do longa. Possuindo aquela típica personalidade graciosa e inocente dos filmes do estúdio. É a partir dela que "Frozen" apresenta um de seus ares mais modernosos, com uma crítica interessantíssima ao amor à primeira vista presente em quase todos os "felizes para sempre" da Disney. Autoironia sempre será uma forma bacana de se abordar um clichê.

    E, se é para falar de clichê, falemos dos personagens fofinhos aptos à distribuir piadinhas durante o filme. Aqui o posto principal nestes termos pertence a Olaf, um boneco de neve que sonha em conhecer o verão. Talvez aparecer só lá pela metade do longa tenha atrapalhado o pobre coitado, mas a sua participação fica bem aquém de clássicos do estúdio como Timão e Pumba. Bem esquecível. Até o alce Sven é mais engraçadinho - e ele não fala -.

    Outra marca registrada da Disney e que o estúdio vem recuperando em suas obras é a presença de números musicais. E "Frozen" é cheio deles. Se, por um lado, "Let It Go" é o momento mais lindo e tocante do filme - muito disso por causa da maravilhosa performance de Idina Menzel -; por outro, muitas das músicas são simplesmente sem graça. Uma redução na quantidade teria feito um grande bem ao ritmo do filme, o qual por vezes é quebrado pela cantoria incessante.

    A sensação que fica ao fim de "Frozen" é que os próprios clichês do gênero impedem que o longa alce voos maiores. Mesmo que seus produtores tenham feito um considerável esforço em desviar-se, por exemplo ao colocar o foco na trama entre as irmãs em detrimento do amor "príncipe-princesa" - o clímax é providencial ao evidenciar isto -; a estrutura típica dos longas do estúdio ainda o esquematizou demais. Não é a sua melhor animação desde "O Rei Leão", como muito foi chamada ("Enrolados", por exemplo, é um filme melhor); mas não deixa de ser um bom alento.

Nota: 7/10 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Trapaça


    "Trapaça" é a sequência do diretor David O. Russell na sua caminhada em busca do tão sonhado Oscar. E para isso, claro, investe em filmes redondinhos, sob medida e que tomam a menor quantidade possível de riscos. É interessante notar a evolução (na verdade, estamos mais para involução mesmo) dos longas do diretor durante esta década de 2010. Se "O Vencedor" era um drama poderoso, também centrado principalmente em suas poderosas atuações - o que é marca registrada de O. Russell, que, de fato, é um ótimo diretor de atores -; "O Lado Bom da Vida" e "Trapaça" são apenas filmes lights e sem graça, que tentam dar ênfase nos seus personagens e se perdem em meio a roteiros verborrágicos.

    Desta vez, o diretor traz à tela uma versão aguada e pretensamente engraçadinha de "Os Bons Companheiros", de Martin Scorsese. A inspiração, proximidade, homenagem (chamem do que quiserem) ao diretor de "O Lobo de Wall Street" fica ainda mais evidente pelo uso intensivo da câmera inquieta e movimentada. Mas O. Russell não é Scorsese e lá pelas tantas de suas 2h10 de duração, a sensação de que aquilo era um trabalho apenas genérico fica latente.

    A trama cheia de reviravoltas (a maioria bem ineficaz) envolve dois golpistas, Irving Rosenfeld (Christian Bale, de "O Vencedor") e Sidney Prosser (Amy Adams, de "O Mestre"), que são forçados a trabalhar em conjunto com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper, de "Se Beber, Não Case!") e se infiltrar no mundo da máfia e da política. Eles fazem isso por intermédio do político Carmine Polito (Jeremy Renner, de "Guerra ao Terror"), que nada sabe sobre a operação. Entretanto a esposa de Irving, Rosalyn (Jennifer Lawrence, de "Inverno da Alma") aparece e muda as regras do jogo.

    O roteiro de "Trapaça" é um de seus principais problemas. Apostando em diálogos pretensamente espertos, o filme se torna apenas um falatório sem fim e dos mais cansativos. Não suficiente isso, ainda possui uma narração em off que em metade do tempo só serve para dizer aquilo que O. Russell não foi capaz de deixar claro para o espectador por meio de imagens: já que não consegue mostrar, discursa sobre e deixa a história mastigadinha para todo mundo. Um artifício pobre e mais uma vez emulado de filmes de Scorsese, porém nestes, a narração é um algo a mais à trama, não uma muleta.

    Mas "Trapaça" não é só desgraça também. Sua parte técnica é belíssima, principalmente em sua direção de arte e figurinos, competentes na transição para uma década de 70 intencionalmente exagerada e colorida. A trilha sonora também ajuda muito nesta volta ao passado através de suas interessantes escolhas de músicas. Além disso, a montagem do longa é um de seus pontos fortes, ao tornar a trama mais ágil e desafogar um pouco da verborragia e "blá-blá-blá" criados por O. Russell.

    Ancoradas neste tom exagerado escolhido pelo diretor, as atuações (tão celebradas) estão irregulares. Bale faz uma versão caricata de Robert De Niro (que faz uma ponta no longa) nos tempos áureos de suas parcerias com Scorsese (ele de novo!) e está tão exagerado quanto seu barrigão com 20 quilos a mais e sua peruca mal feita. Cooper não é bom ator e cumpre exatamente as expectativas que podemos criar sobre ele: nenhuma. Renner praticamente passa pela tela sem ser lembrado, mas não compromete, pois pelo menos escolheu uma composição mais sutil.

    Já as atuações femininas são as verdadeiras forças motoras da película. Amy Adams está magistral e é uma das melhores atrizes da atualidade. Sua personagem é a mais completa e profunda do longa e, portanto, a mais interessante. Não fosse Cate Blanchett, seria minha favorita para o Oscar de Melhor Atriz. Já Jennifer Lawrence faz um trabalho muito melhor que em "O Lado Bom da Vida", numa composição mais densa e competente. A cena entre ambas em um banheiro é a melhor do filme.

    Todavia, claro, O. Russell sabota até o que é bom em seu filme e em seus últimos momentos destrói qualquer pretensão de Lawrence em se manter longe da caricatura ao construir uma cena absolutamente desnecessária, exagerada e caricatural em que a personagem da atriz aparece cantando "Live And Let Die". O diretor quebra a quarta parede e a sensação que fica é de pura vergonha alheia.

    A torcida que fica é para que os deuses do cinema não permitam que O. Russell leve o Oscar, que com certeza tem filmes mais merecedores em recebê-lo. Não que qualquer premiação mude a qualidade de algum trabalho, mas dói ver qualquer forma de reconhecimento indo para algo que não o merece. Essa coisa convencional e wannabe cool que o diretor se tornou é apenas chata e sem graça.

Nota: 6/10

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Os Croods


    Com o gênero infantil americano numa evidente entressafra - ao que eu dei muita ênfase na crítica para "Meu Malvado Favorito 2" -, é até de se comemorar o lançamento de algo absolutamente mediano como "Os Croods". Com evidentes inovações visuais e problemas estruturais, o longa não chega a ser dos melhores da DreamWorks, mas também não é uma catástrofe.

    O longa se enquadra perfeitamente nos padrões de seu estúdio: personagens forçados a sair de seu cotidiano e que são obrigados a se adaptar a uma nova realidade. Aqui, os Croods, uma família acostumada a uma rígida rotina de sobrevivência durante a era pré-histórica, são forçados a explorar o mundo quando o seu antigo lar acaba por ser destruído.

    Grug é o pai superprotetor; Ugga, a mãe simpática; Thunk, o irmão idiota; Sandy, a bebê louca; e ainda temos a vovó (para render aquelas piadas supimpas de sogra). Essa é a família de Eep, uma jovem curiosa por descobrir o mundo, mas presa aos hábitos familiares. Tudo muda quando ela conhece Guy e as transformações naturais do planeta forçam os Croods a buscar um novo lar.

    O humor do filme se baseia no estranhamento da antiquada família quanto a itens "modernos" como sapatos e fogo, no que o longa alcança razoável sucesso. Além disso, a inexistência de propriamente um vilão - digamos que a vilã aqui seja a própria natureza -, não deixa de ser uma saída do eixo comum das animações. Outrossim, importante citar a beleza visual da película, com passagens deslumbrantes, usando de uma liberdade criativa e poética na criação de vegetações e animais do período pré-histórico.

    Se possui estes acertos, "Os Croods" peca pelo roteiro formulaico nos conflitos familiares e pelas lições de moral nada sutis e típicas da DreamWorks. Também é notável o problema que o filme possui em sua trilha sonora exageradamente pesada e na unidimensionalidade de membros da família - gente, aquela avó?! -. Um trabalho mais profundo no roteiro com certeza teria trazido melhores frutos à animação.

    Numa tentativa de equilíbrio entre visual fantástico, roteiro esquemático, humor eficiente e história batida; "Os Croods" é um programa razoavelmente agradável, praticamente inofensivo e útil para uma noite entediada. Como cinema, é apenas medíocre e somente digno de nota pela sua técnica.

Nota 5/10

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Ernest & Célestine


    Em meio a esse período turbulento de entressafra nas animações americanas, é um grande alívio encontrar uma animação francesa tão simples, mas ao mesmo tempo apaixonante. É um típico buddy movie, mas feito com tanta qualidade e atenção aos detalhes que não tem como não achá-lo uma obra maravilhosa.

    O enredo é sobre a estranha amizade entre uma jovem ratinha, Célestine, e um urso, Ernest. Célestine vive no subsolo, junto dos outros ratos, em uma espécie de orfanato e sonha em ser desenhista. Já Ernest é um urso pobre, que vive isolado numa floresta e busca seu sustento como músico de rua - o que não é bem visto na tradicional sociedade dos ursos -.

    Os caminhos de ambos se cruzam quando Célestine fica presa em uma lata de lixo durante um de seus passeios noturnos pela cidade dos ursos e é Ernest quem a encontra. Nasce ali uma amizade impossível: para os ursos, os ratos eram criaturinhas nojentas que deveriam habitar o subsolo e manter-se longe; para os ratos, os ursos eram bichos perigosos e truculentos que não hesitariam em comê-los vivos.

   Pode-se ver que a história é simples e batida, mas sua construção é tão bela e bem feita que nem dá para ligar para isso. A amizade entre ambos é construída aos poucos, sem sobressaltos. Além disso, a animação é tão maravilhosa - toda feita em aquarelas - que não tem como não se apaixonar. Um desenho colorido e em alguns momentos até lírico - como nos momentos em que ambos tem pesadelos -.

    Ademais, por trás de tudo, a trama também guarda uma interessante crítica social, pois mesmo quando Ernest e Célestine começam a morar juntos, a ratinha também vive na "parte inferior", ou seja, no porão. Com o passar do tempo, e o crescimento do afeto entre os dois, essa barreira de superioridade e preconceito se quebra. Numa lição de moral bacana para crianças e nada forçada pelo roteiro - na verdade, ela nem é tão óbvia assim -.

    Por fim, "Ernest e Célestine" é uma animação bem simples e de baixas pretensões, mas surpreendentemente bela e tocante. Sua simplicidade fica escancarada em seu final, que cai no lugar-comum e se torna até bobo. Mas é um conto tão bonitinho e com cenas tão maravilhosas, a partir de suas aquarelas deslumbrantes, que certamente tem lugar entre as melhores animações do ano.

Nota 8/10

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Grande Beleza


    "A Grande Beleza" é um filme contemplativo. Não muito fácil de se assistir também, é verdade. Pela própria intenção de Paolo Sorrentino com sua obra, não poderia ser um filme de estrutura narrativa comum, posto que não possui uma linha única em sua história. Se trata de um filme de situações, em que o todo não forma uma sequência narrativa totalmente amarrada em si, mas sim um mosaico de fatos, reflexões e simbolismos.

    Sorrentino busca, através dos olhos de um já sexagenário escritor, construir um retrato da sociedade italiana contemporânea. Reservados os devidos momentos políticos e sociais distintos, se aproxima muito do cinema de Federico Fellini - o que sempre é lembrado e relembrado nos textos por aí sobre o filme -. Logo em seus primeiros momentos o longa já deixa claro que os tempos são outros, quando durante a festa de aniversário de 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo, de "As Consequências do Amor"), o protagonista, vemos uma alta sociedade envelhecida e deslocada.

    Construída com eficácia pelo roteiro do próprio Sorrentino acompanhado de Umberto Contarello, essa viagem analítica em meio às disfunções e futilidades que permeiam a sociedade italiana se mostra extremamente competente em cumprir seu objetivo de contemplação, adoração e julgamento - tudo ao mesmo tempo -. É um misto de passeio turístico com crítica social e viagem pela arte romana, espalhado pelas 2h20 de duração do longa (que poderia, sim, ser menor sem perder força - Sorrentino pecou pelo excesso -).

    Além disso, o filme se destaca também por sua parte técnica. A direção do italiano é competente e - apoiada na belíssima fotografia -, traz um excelente trabalho de câmera, que amplia os horizontes do filme e o engradece ainda mais. Os créditos finais, acompanhados de um tour turístico pela capital italiana demonstram bem as belas imagens que "A Grande Beleza" (hum...) nos proporciona.

    Após toda a jornada e passadas quase duas horas de sua duração, o longa chega a outro de seus problemas: os sucessivos "finais-que-não-são-finais-só-parecem-ser-finais". São diversas cenas que perfeitamente serviriam como fechamento de tudo aquilo, mas Sorrentino parecia querer mais. Claro, há muita a coisa a se dizer num filme deste tipo, que não se prende a uma estrutura simples e se horizontaliza. Entretanto o espectador, já até um pouco cansado e atordoado - não é um filme fácil, eu disse -, não está mais tão arrebatado pela jornada.

    Em uma visão geral, "A Grande Beleza" é um grande filme, extremamente bem executado e que cumpre suas enormes pretensões com particular maestria e elegância. Os deslizes, causados pelo excesso, seja na duração, seja pela demora para o seu desfecho; se mostram bem menores quando comparados à realização de Paolo Sorrentino.

Nota 8/10


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - O Grande Gatsby


    Não haveria como esperar outra coisa da adaptação cinematográfica de Baz Luhrmann para "O Grande Gatsby" que não exagero imagético. Um diretor que possui "Moulin Rouge - Amor em Vermelho" no currículo não poderia fugir disso, já que está na sua concepção de cinema. A questão seria a dosagem de histrionismo, principalmente pelo fato de o texto original de F. Scott Fitzgerald guardar uma pesada crítica social. E, de fato, Luhrmann quase engole a história toda.

    O enredo é conduzido sob o ponto de vista de Nick Carraway (Tobey Maguire, de "Homem-Aranha"), que é fascinado por seu misterioso vizinho e novo amigo, Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio, "A Origem"). Gatsby é famoso pelas festas que dá em sua enorme mansão, porém sua única intenção com isso é chamar a atenção de seu amor do passado, Daisy Buchanan (Carey Mulligan, "Shame"). Ela agora é casada com o ricaço e arrogante Tom Buchanan (Joel Edgerton, "Guerreiro") e cabe a Nick aproximar Gatsby dela novamente.

    Todo o primeiro ato é purpurina pura. Mas não é como se Luhrmann já não nos avisasse disso já nos créditos iniciais, né... Sequências musicais coloridas e exageradas, embaladas pela trilha sonora repleta de músicas atuais (a qual não funciona tão organicamente como ocorreu em "Moulin Rouge"). Elas engolem a história de todo o primeiro ato. Acompanhamos tudo sem qualquer imersão, somos meros observadores dos fogos de artifício de Luhrmann. É uma primeira parte bem cansativa, para dizer o mínimo. Principalmente para os olhos. Decididamente o australiano perdeu a mão ali.

    A trama e a crítica social séria de "Gatsby" não aceitam tanto o histrionismo dele da forma como "Moulin Rouge" obviamente aceitava. Pelo menos todo o exagero mostrou o poder da direção de arte, da fotografia e figurino do filme - belíssimos -. Entretanto, as atuações acabam ficando escondidas perante tanto brilho: Mulligan está insossa, Maguire com a cara de sempre e Isla Fisher, a amante de Tom, exagerada como seu diretor. DiCaprio é, de fato, o único a trazer alguma profundidade - ainda que também esbarre em maneirismos -.

    Já na segunda parte, tudo melhora. Luhrmann põe o pé no freio e deixa a força do livro falar por si. O foco muda da técnica para o texto e seus personagens e, enfim, a história começa a andar. Saímos da montagem atropelada do começo, para um ritmo bem mais respirável para o espectador. Apesar disso, já era um pouco tarde. O interesse já não era o mesmo, a paciência também não. Luhrmann, na verdade, fez o serviço de estragar algo que poderia ter sido ótimo e feito jus ao clássico literário que "O Grande Gatsby" é.

    O que fica, realmente, é a parte técnica maravilhosa - o que já era esperado - e um segundo ato que funciona e recupera o fôlego do filme. Luhrmann agora pelo menos tem um sucesso comercial passado no currículo para conseguir financiar sua próxima ousadia e, quem sabe, chegar a alguma obra de bom nível. Em "O Grande Gatsby", ele com certeza não o fez.

Nota 6/10

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Meu Malvado Favorito 2



    As animações americanas vêm passando por um período complicado. Obras originais medíocres ("Reino Escondido", "Valente", "Turbo"...) e sequências sem qualquer inspiração ("Carros 2", "Gato de Botas"...). Aí, abaixo de tudo isso, nas profundezas da escória cinematográfica, aparecem "Meu Malvado Favorito" e este seu sucessor. Porque, claro, o que está ruim sempre pode piorar (e em 2014, com "Minions", a tragédia deve ser ainda maior).

    Se o primeiro longa falhava totalmente na tentativa de inverter os papéis e manter um vilão-protagonista (tal qual seu contemporâneo "Megamente"), aqui os aprendizes de roteiristas Ken Daurio e Cinco Paul falham miseravelmente em construir qualquer arremedo decente de história. Acho que não há prova maior do fracasso narrativo desta franquia do que a inexistência de relação das histórias de um filme com a do outro (na verdade nem mesmo no próprio longa se forma um todo coeso e amarrado).

    Bom, a proposta inicial do filme é que Gru, o vilão que virou heroi, é recrutado pela Liga Anti-Vilões para descobrir quem roubou a fórmula PX41. Pelo menos assumiram que foram incompetentes na criação de um anti-heroi e pegaram a easy road agora, né. A partir disso, o roteiro conjunto de frases em forma de script tenta criar algum mistério em torno da identidade do culpado. Pelo menos eu posso dizer que ri nessa parte do filme! Tá, involuntariamente, mas conta como riso, né?

    Em meio à isso, também há a tentativa de construir algum relacionamento entre Gru e sua parceira, Lucy Wilde. Tão sem sal quanto forçada. E enquanto isso, claro, temos os minions que, se decididamente salvavam a película original da catástrofe por trazer algum refresco de humor, agora se tornam apenas um prato requentado. Com muito mais tempo na tela, a sensação de déjà vu é incessante. Um verdadeiro arremedo de tudo que a comédia pastelão já fez pelo riso fácil, porém agora fazendo uso de carinhas amarelas fofas e loucas para serem vendidas nas lojas de brinquedos.

   Na verdade, o filme todo parece partir desse princípio. E também do de tentar fazer graça com tudo. Uma coisa meio "vamos imaginar várias cenas engraçadinhas, amarrar, colocar um fiapo de contexto e, pronto, olhem os milhões vindo". Muito que bem. Isso só mostra como está grave a situação das animações americanas - num ano em que a poderosa Pixar ficou sem indicados na categoria de animação do Oscar -.

   Mas vamos terminar este texto antes que minha pressão suba. Mas fiquem aqui com uma dica: querem assistir a algo muito fofo, muito lindo, muito encantador, uma animação excelente, daquelas infantis sem nos fazer de estúpidos? Vejam "Ernest e Célestine". Muitíssimo melhor e incrivelmente maravilhosa. 

Nota 3/10

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Álbum de Família


   Chega final de ano e já podemos esperar aquela safra de filmes feitos sob medida para o Oscar. Entre os diversos tipos destes tais, temos os filmes vindos de livros ou peças teatrais renomados, recheados de atores do primeiro time, os quais ficam responsáveis por segurar os já fortes textos do formato original. "Álbum de Família" entra totalmente nesta categoria.

   Baseado na peça ganhadora do Pullitzer e do Tony (o Oscar do teatro), o longa conta a história da família Weston que acaba por se reencontrar novamente em razão do desaparecimento do patriarca da família, Beverly (Sam Shepard, de "Os Eleitos"). A partir daí, é um desfile de rostos conhecidos do grande público: Meryl Streep ("O Diabo Veste Prada"), Julia Roberts ("Uma Linda Mulher"), Ewan McGregor ("Star Wars"), Abigail Breslin ("Pequena Miss Sunshine"), Benedict Cumberbatch ("Sherlock"), Juliette Lewis ("Um Drink no Inferno"), Margo Martindale ("A Órfã"), Chris Cooper ("Adaptação") e Julianne Nicholson ("Law and Order: Criminal Intent").

   Alguns você quase nem lembrará que passaram pela tela - McGregor, Breslin, Cumberbatch e Nicholson -, outros caem no lugar-comum irritante - Lewis - e outros se destacam - Streep, Martindale, Cooper e Roberts -. "Álbum de Família" se torna, no fundo, um filme carregado pelos atores. Na verdade, pelas atrizes.

   Adaptado para o cinema pelo próprio autor da versão teatral, Tracy Letts, o roteiro do longa se mostra deficiente na transformação da peça em filme - algo que o próprio Letts já havia feito muito bem em "Killer Joe - Matador de Aluguel" -. A presença da teatralidade ali é pulsante e o texto pouco faz para amenizá-la, uma coisa que, por exemplo, "Deus da Carnificina" de Roman Polanski fez com razoável competência.

    Muita da culpa disso ocorrer deve também ser creditada ao diretor do longa, John Wells ("A Grande Virada"), que num trabalho sem qualquer personalidade praticamente abdica da função de diretor, fazendo um uso de câmera absolutamente convencional e sem sal. Wells joga a responsabilidade para cima de seus time de atores - façam o filme! - e se finge de morto. Não há qualquer trabalho quanto a ângulos ou enquadramentos e deve ter sido a intenção mesmo.

   Se diretor e roteirista não cumprem suas devidas funções, que reste aos atores tornar "Álbum de Família" digno de nota, né. E de certa forma é isso mesmo que acontece. Meryl Streep está over no ponto certo e entra num embate ferino com Julia Roberts para saber quem seria a dona do filme - ganhamos nós, com duas atuações espetaculares -. Já Martindale e Cooper, em composições bem mais sutis e comendo pelas beiradas, também se destacam.

    No fim da sessão, fica a sensação de um longa absolutamente esquecível pela sua falta de ambição (impregnada na fraqueza do diretor e no engessado roteiro), cheio de subtramas pouco exploradas (o que se vê pela quantidade de membros da família que nem lembramos o nome), mas que compensa pela aula de atuação que recebemos de Streep e Roberts.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Capitão Phillips


    Baseado em fatos reais, "Capitão Phillips" conta a história do capitão Richard Phillips (Tom Hanks, de "Náufrago"), cujo navio cargueiro foi sequestrado por piratas somalis. O longa se passa quase que totalmente em alto-mar, exceto por uma pequena introdução que mostra as diferentes realidades em que vivem Richard, americano, e os piratas somalis. Ali começa a ser delineada a trama política subjacente ao thriller, a qual infelizmente não chega a se desenvolver muito.

    O enredo político não é estranho à filmografia pregressa de seu diretor, Paul Greengrass. Desde o conflito na Irlanda durante os anos 70, em "Domingo Sangrento", passando pelo terrorismo com "Voo United 93", até seu filme anterior, "Zona Verde", que tratou da Guerra do Iraque; Greengrass trabalha em filmes de ação acessíveis ao grande público e que venham com um algo a mais. Ainda que muitas vezes suas pretensões esbarrem nos próprios limites hollywoodianos.

   O filme, como um todo, é tenso e angustiante. As sequências de sequestro do navio e de resgate do capitão são pontos chaves e representativos da força de Paul Greengrass como diretor. Se assemelha a outro indicado ao Oscar, "Gravidade", ao também praticamente colocar o espectador como presente durante aqueles acontecimentos. Nisto também é importantíssima a presença da trilha sonora, composta por Henry Jackman, que amplia ainda mais o nervosismo e tensão das cenas e a montagem ágil de Christopher Rouse.

    Entretanto também é notável que a película em momento algum sai da linha típica do gênero ou ousa em termos de roteiro e subtexto político. Há pouco enfoque na parte dramática da história - sendo que seria interessantíssimo que ela existisse -, na maior parte do tempo temos apenas um filme de ação bem realizado. Além disso, como já dito, a discussão política sobre a questão dos somalis - e sua situação precária de vida - em choque com os desejos dos grandes poderosos dos países ricos é muito superficial, ficando segregada a alguns parcos diálogos entre Richard e o líder dos sequestradores, Muse (o estreante Barkhad Abdi).

   E, por falar nele, Abdi é uma das muitas revelações do ano em atuações. Em um papel que facilmente cairia na unidimensionalidade e no lugar-comum, o ator somali faz uma interpretação absolutamente crível e impressionante, injetando camadas de complexidade ao seu personagem. Já Tom Hanks, após anos sem entregar trabalhos realmente notáveis, volta à forma numa atuação excepcional. Sua interpretação durante a cena final é absolutamente soberba - daquelas sob medida para se colocar ao apresentar o ator nas premiações -. Uma injustiça sua não-indicação ao Oscar.

   Em última análise, "Capitão Phillips" é um bom e eficiente longa. Extremamente bem dirigido e com parte técnica impecável, além de contar com duas atuações principais de primeiro nível. Entretanto, chega a ser decepcionante a falta de coragem na abordagem política e narrativa. Greengrass escolhe abraçar exclusivamente a ação, mas podia ter ido além.

Nota 7/10

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Blue Jasmine


    Eu não faço questão de esconder de ninguém que tenho sempre um pé atrás para assistir a um filme de Woody Allen (para não dizer que tenho os dois). Eram cinco filmes vistos, até então, e só "Meia-Noite em Paris" conseguiu entrar na lista dos que gostei. Portanto foi com uma razoável dose de boa vontade - e muito apreço a Cate Blanchett - que me dignei a sair de casa para assistir a "Blue Jasmine". E até que saí satisfeito da sessão.
    
    O longa acompanha a história de Jasmine (Cate Blanchett, de "O Aviador"), uma ricaça que se vê no fundo do poço ao perder todo seu dinheiro, o qual foi confiscado pelo governo após a prisão de Hal (Alec Baldwin, de "Simplesmente Complicado"), o marido dela. Então, Jasmine se vê obrigada a ir morar com sua irmã, Ginger (Sally Hawkins, de "Simplesmente Feliz"), numa casa simples em um bairro de classe média de San Francisco.

    A comparação de Jasmine com Blanche DuBois (personagem marcante interpretada pela fantástica Vivien Leigh em "Uma Rua Chamada Pecado", de Elia Kazan) é inevitável. Na verdade, as histórias são absurdamente próximas - o que é obviamente proposital, Woody assumidamente ama o longa de Kazan -. Mulheres acostumadas ao luxo, que, ao se verem sem dinheiro, buscam refúgio na casa de suas irmãs. Mulheres que buscam um homem que possa as sustentar - porque, claro, merecem tudo do bom e melhor -. Mulheres com o emocional profundamente abalado e a um passo de perder todo o controle de si. E, claro, mulheres que menosprezam os parceiros românticos de suas irmãs.

   Tal qual no longa de 1951, em que Vivien Leigh dominava a tela, Cate Blanchett é um monstro em cena durante "Blue Jasmine". Apoiada na cuidadosa construção da personagem no próprio roteiro de Woody Allen, a atriz expande as nuances de Jasmine ainda mais. É uma interpretação hipnotizante, merecedora de cada prêmio que vem recebendo e do Oscar que ainda receberá. Intensa e sem se prender aos tiques típicos de Allen, Blanchett é a dona do filme - "Blue Jasmine" não seria um quarto do que é sem ela -.

    Também importantíssima na trama é a irmã de Jasmine, Ginger. Contrapondo quase totalmente a personalidade da irmã, a personagem de Hawkins é apresentada de forma bem mais sutil. A diferença entre ambas fica ainda mais notável a partir dos flashbacks que o roteiro amarra muito bem durante a película. O encontro de ambas em Nova York durante a "fase rica" de Jasmine é marcante, da mesma forma que a discussão que travam nos momentos finais do filme. São maneiras totalmente opostas de encarar a vida.

    "Blue Jasmine" é, na verdade, um filme de personagens muito bem construídos, porém é em seu próprio roteiro que residem algumas de suas falhas. Allen, talvez priorizando o estudo de personagens, constrói um roteiro que acaba caindo em saídas fáceis. A resolução do romance de Jasmine com Dwight (Peter Sarsgaard, de "A Órfã") é totalmente abrupta e até preguiçosa, se pararmos para pensar, e os diálogos por vezes caem na armadilha de serem expositivos demais.

   Por fim, o longa acaba por ser um trabalho bem distante das últimas coisas que vimos de Woody Allen, se apoiando bem menos na comédia. Talvez por isso tenha conseguido conquistar uma simpatia que ainda não consegui sentir por muitos dos seus filmes. Apesar dos problemas, "Blue Jasmine" é um ótimo filme, apoiado muito mais na magistral interpretação de Cate Blanchett do que no estilo de Allen e que vale uma conferida.

Nota 7/10

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Caça



    Thomas Vinterberg, diretor de "A Caça", foi o criador do movimento Dogma 95, junto de Lars Von Trier. Para quem não sabe, ele é constituído por dez regras cinematográficas que tinham como objetivo resgatar a essência do cinema, colocando restrições quanto ao uso de tecnologias nos filmes. Por exemplo, impõe-se o uso da câmera na mão, a não-utilização de iluminação artificial e a proibição de ações "superficiais" na história, ou seja, tudo que ali ocorrer deve ser totalmente real - ou seja, se quiser uma ação x aconteça, ela tem que ocorrer fisicamente (sem montagens) -.

    É interessante notar como tanto Von Trier quanto Vinterberg já se afastaram um pouco das diretrizes do Dogma 95. Ambos fizeram apenas um filme cada que se encaixasse totalmente nele: "Os Idiotas" e "Festa de Família", respectivamente. No seguimento de suas carreiras, apesar de manter o estilo narrativo focado em personagens, suas técnicas cinematográficas foram sendo ampliadas. Notamos, hoje, com os lançamentos "Ninfomaníaca" e "A Caça" que câmera exclusivamente na mão e luz somente natural são coisas deixadas de lado.

    Mas, curiosidades de lado, vamos falar sobre "A Caça", porque é para isso este texto. O longa dinamarquês parece ter sido o retorno à glória de Vinterberg, já que desde "Festa de Família" ele não obteve tanto reconhecimento de público e crítica. E, sim, o reconhecimento é merecido. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e também ao Globo de Ouro, o filme conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, de "007: Cassino Royale"), um professor de jardim de infância, que tem sua vida transformada em um inferno quando toda a cidade se volta contra ele devido a uma acusação infundada.

    Klara (Annika Wedderkopp), uma de suas alunas e filha de seu melhor amigo, acaba por construir um afeto "excessivo" em relação a Lucas e, quando este a rejeita, a menina fica profundamente triste. A fraqueza emocional de uma criança tão pequena, então, faz a diferença e a garota - repetindo algo que ouvira do seu irmão - diz à diretora do colégio que Lucas mostrou a ela seu órgão genital. É o início da via crucis do professor. De um homem cheio de amigos, que obteve a guarda do filho e reencontrava o amor em uma de suas colegas de trabalho; a acusado injustamente de um crime que não cometeu, linchado socialmente e afastado do filho.

    O espectador onisciente, que sabe toda a verdade, vira cúmplice do sofrimento deste homem e dos males do pré-julgamento. O roteiro, assinado por Vinterberg ao lado de Tobias Lindholm, é eficiente em mostrar a crescente tensão presente na história - muito apoiado também, é claro, no trabalho de direção do dinamarquês. Desde os primeiros momentos, quando a acusação vai tomando forma e as pessoas começam a virar as costas para Lucas; até o momento de quase total esgotamento mental e abandono social em que o professor é colocado - apenas seu filho e um amigo se mantém ao seu lado -. É chocante e deixa o espectador absolutamente angustiado.

    Além disso, muita da força de "A Caça" reside nas atuações de seu elenco. Annika Wedderkopp, intérprete de Klara, é extremamente competente, numa personagem difícil. Mas o grande destaque é Mads Mikkelsen. Numa interpretação extremamente contida, Mikkelsen impulsiona seu personagem, ampliando cada momento de dor e sofrimento, numa interpretação feita nos mínimos detalhes e que explode em uma das cenas finais - numa igreja -. É a melhor cena do filme e muito por causa do trabalho do ator.

    Na parte técnica, há de se mencionar a brilhante fotografia de Charlotte Bruus Christensen, que caminha junto à história do filme, e vai reduzindo as cores quentes e a "alegria" conforme a evolução da situação de Lucas. Também se destaca a montagem, que torna o filme ágil, porém contemplativo, na medida certa - nenhuma cena é longa ou curta demais -.

    Finalmente, dois comentários sobre o final do filme (se não o viu, não leia este parágrafo): muitos reclamaram sobre Lucas e o povo da cidade voltarem a conviver em harmonia e nisto não vi problema nenhum, posto que ele era inocente, oras; outros reclamaram do final dúbio (ou não), em que o professor supostamente quase é atingido por uma bala. Para mim, se trata de um justo lembrete de Vinterberg: mesmo declarado inocente, aquela acusação caminharia com Lucas pelo resto de sua vida, assim como a desconfiança.

Nota 8/10

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Gravidade



    "Gravidade" certamente foi um dos filmes falados do ano. E, de fato, é a maior realização técnica do cinema no ano. Seus curtos 90 minutos são um deleite técnico e visual, e com certeza serão lembrados por muito tempo como uma das melhores ficções científicas de todos os tempos. Seu diretor, Alfonso Cuarón (de "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban"), utiliza cada detalhe cinematográfico em prol da experiência. E o apuro técnico do longa tem razão de ser: foram quatro anos de produção.

    A trama é bem simples: a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock, de "Miss Simpatia") e o veterano astronauta Matt Kowalsky (George Clooney, de "Os Descendentes") se veem isolados no espaço quando a estação espacial na qual trabalhavam é completamente destruída pelos destroços de um satélite russo. Então, começa uma jornada pela sobrevivência, em torno de todos os perigos que o isolamento no espaço pode oferecer.

    Logo no início do filme já notamos que o que diferenciaria "Gravidade" dos demais do gênero seria seu diretor e sua qualidade técnica. Logo em seus primeiros minutos, somos brindados com um dos mais belos planos-sequências da história (ele tem mais de dezessete fucking minutos!). A partir daí, Cuarón nos leva a uma imersão total, com tensão do início ao fim e belíssimas imagens.

    Desde o empolgante (e em um único plano-sequência!) trailer, já era de se esperar um filme que nos deixaria presos à cadeira o tempo todo. Mas o longa excedeu todas as expectativas. Não somente por seu roteiro impor as mais diversas dificuldades à Ryan, mas também pelo maravilhoso trabalho de câmera de Cuarón, acompanhado da excelente fotografia, da deslumbrante trilha sonora (que marca tanto quando presente, quanto ao se ausentar completamente - nos deixando no total silêncio), do espetacular uso do som e dos efeitos especiais magníficos.

    É, sim, um exercício de gênero, com roteiro formulaico; mas, aqui, temos um dos melhores usos do cinema como experiência sensorial. São diversos os momentos em que "Gravidade" consegue se mostrar um grande filme: pelo plano-sequência inicial, ou quando temos a mudança de câmera objetiva para subjetiva e observamos a crise pelo ponto de vista da própria Ryan, ou a tão falada cena em que a engenheira médica flutua em posição fetal. Dá para montar uma longa lista.

    Claro, temos de citar a atuação de Sandra Bullock, que, se não chega perto de ser uma boa atriz, ao menos é competente em segurar o filme durante os 90 minutos. Já George Clooney também está bem, (SPOILER!) e o filme até perde um pouco o fôlego nos momentos de ausência de seu personagem (/SPOILER!).

    De qualquer forma, "Gravidade" é um espetáculo visual, técnico e contemplativo. Possui, com certeza, as mais belas imagens e os momentos mais tensos do ano. Uma experiência imersiva completa e marcante, que se não chega perto de "2001: Uma Odisseia no Espaço" enquanto análise, lembra o filme de Stanley Kubrick enquanto feito tecnológico.

Nota 9/10

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crítica - Azul é a Cor Mais Quente

    Esta crítica é, na verdade, uma análise geral de toda a história do longa, portanto possui alguns spoilers. Nada de muito sério ou prejudicial, mas é bom avisar aos desavisados que ainda não viram o filme (mas devem vê-lo logo, vão, corram pro cinema!).


    É assustador como alguns filmes chamam a atenção de alguns pelos motivos errados. Quantas pessoas não ouviram falar de "Azul é a Cor Mais Quente" devido à tal "cena-de-sexo-lésbico-de-quase-dez-minutos"? E é ainda mais assustador pensar que algumas pessoas só vão ao cinema assisti-lo por causa disso. Por outro lado, é ótimo que muitas que o assistem consigam perceber o que o filme de fato é, e notar que a tão falada cena não está ali para chocar ninguém e possui um profundo valor narrativo. Julgamentos à parte, vamos falar do longa.

    Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, "Azul é a Cor Mais Quente" é uma adaptação de uma HQ francesa escrita por Julie Maroh. O filme, dirigido por Abdellatif Kechiche (de "O Segredo do Grão"), conta a história de Adèle (Adèle Exarchopoulos, de "Quando Eu Era Sombrio") e sua busca por si mesma durante a juventude. Ela não sabe o quer para seu futuro, não se compreende, não se adapta ao mundo: ela é adolescente. Pressionada pelas amigas (e por que não por si mesma?), Adèle aceita sair - e perder sua virgindade - com um garoto de seu colégio, mas ela não se sente bem com ele, aquilo não a faz feliz, não a completa.

    Em seu início, o roteiro, assinado pelo próprio Abdellatif Kechiche junto de Ghalia Lacroix, pontua muito bem o universo perdido, desfuncional e cheio de incertezas da protagonista. Ela não se parece com suas amigas, não sente atração pelo garoto que todas acham lindo, está fora do padrão. Aos poucos, vamos entrando na jornada de descoberta de Adèle. O grande ponto de virada é quando ela cruza na rua com uma garota de cabelos azuis e não mais consegue tirá-la da cabeça. E, então, numa bela cena, vemos Adèle fazendo sua primeira descoberta: seu próprio corpo - sim, o autoprazer.

    Inquieta e sedenta por se descobrir ainda mais, Adèle se joga ao mundo "alternativo". Ela quer se compreender, oras. E é aí que, para sua surpresa, ela reencontra num bar a jovem de cabelos azuis que viu na rua: Emma (Léa Seydoux, de "Missão: Impossível - Protocolo Fantasma"). Se o filme já era encantador por mostrar de forma tão real e bonita o início do caminho de Adèle, é na construção da amizade e do relacionamento dela com Emma que ele deslancha. A união da direção precisa de Kechiche com a fotografia competente e, acima de tudo, com as interpretações memoráveis das duas protagonistas catapulta o filme à aura de melhor filme do ano.

    Cada cena, cada olhar, cada diálogo, cada toque, tudo grita objetivo e realismo. E a longa cena de sexo - que não é a única do filme - carrega tanto simbolismo quanto poderia. Pode-se compará-la com aquela do começo do filme, de Adèle com o amigo do colégio. Observar a forma com que, a partir dali, a protagonista nunca mais seria a mesma. Ou então notar que, naquele momento Adèle se torna ainda mais próxima de nós - não há mais tabu -. A imagem ali pulsa, cheira, fala, tem textura e explode.

    E é assim que o filme se constrói durante suas três horas de duração. Adèle se autodescobre passo a passo. De garota que não sabia o que fazer da vida no final do ano, até mulher com objetivos profissionais traçados. De garota que tentava se adaptar aos padrões sociais, até mulher que busca sua própria felicidade. De garota que tinha nojo de frutos do mar, até mulher que se delicia com ostras. Ela desbravou mundos diferentes, conheceu coisas novas, ela viveu. Esta foi (e é) a vida de Adèle, que ainda não acabou - já que estamos nos tais capítulos 1 e 2 -. Se a Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski já dizia que a liberdade é azul; Adèle nos conta que, além disso, azul é a cor mais quente.

Nota 9/10
    

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Crítica - Ninfomaníaca: Volume 1


    Muito se falou neste filme antes de seu lançamento. Criou-se toda uma expectativa em torno dele. É até estranho notar que mesmo pessoas que não são muito ligadas ao mundo do cinema já ouviram falar do longa (e inclusive pretendem assisti-lo). Quando seu diretor, Lars Von Trier, que já não é nem um pouco alheio à polêmica, anunciou que faria um filme sobre uma ninfomaníaca, a curiosidade foi instantânea. Von Trier já é conhecido pelos cinéfilos como um diretor despudorado e que tem como característica de seus filmes o fato de estes serem, em grande parte, chocantes (e nisso há quem veja uma qualidade ou um defeito).

    De "Dogville" à "Melancolia", passando por "Dançando no Escuro", "Anticristo" e "Manderlay" - isso para citar seus longas mais conhecidos -, Von Trier sempre mostrou seu cinema de forma clara e sem pudor, o que - querendo ou não - sempre gerou polêmica em meio aos espectadores (nós não estamos exatamente acostumados a ver órgãos genitais ou cenas de sexo em close nas sessões de cinema por aí, né?). Um filme sobre uma ninfomaníaca parecia uma carta branca para Von Trier fazer todas as suas estripulias e ainda ampliá-las. Mas eis que ele nos surpreende novamente.

    Talvez, é claro, esta nossa análise esteja deveras prejudicada pela censura que o filme sofreu em sua fase de produção (cerca de uma hora do filme foi cortada) e pela divisão em dois volumes (o segundo sai em março, no Brasil). Entretanto, é o material que recebemos - e é o material que Von Trier aceitou entregar -. E ele, nem de longe, é seu material mais chocante ou polêmico (este posto ainda pertence a "Anticristo", com toda a certeza). Na verdade, se trata de um filme bem-comportado, em que tudo na tela se mostra justificável pela trama e nada excessivo.

    No longa, Joe (Charlotte Gainsbourg, de "21 Gramas") é uma mulher de 50 anos que é resgatada da rua por Seligman (Stellan Skarsgård, de "Thor"). Ao observar o estado deplorável em que a mulher se encontra, o homem se interessa por saber o que houve com ela. A partir daí, Joe começa a contar suas experiências a ele. Neste primeiro volume, ela ainda é uma jovem (interpretada pela estreante Stacy Martin) e sua ninfomania começa a ser delineada, desde a perda de sua virgindade até o momento em que ela chega a transar com dez homens por noite.

    Um dos principais méritos narrativos do filme é conseguir colocar uma certa leveza ao tema, que por si só já é tão pesado. "Ninfomaníaca" é um dos filmes mais bem-humorados do diretor dinamarquês e chega a ser impressionante a quantidade de momentos em que todo o público da sala de exibição ri. Isso, aliado aos roteiros já normalmente envolventes e bem estruturados de Von Trier, atrai o espectador. Maior evidência disso é a decepção quando o filme subitamente termina, posto que teremos que esperar dois meses para descobrirmos o que houve com Joe para que ela chegasse ao fundo do poço onde está. São duas horas de filme que passam muito rápido.

    Não se pode deixar de mencionar, claro, outros grandes destaques do filme: a direção precisa de Von Trier - que desta vez faz uso de uma câmera bem mais "fixa", o que até causa estranheza aos já habituados às típicas chacoalhadas na imagem geradas pelo uso da câmera na mão -; a excelente direção de fotografia de Manuel Alberto Claro; as ótimas atuações (até Shia LaBeouf está bem), com ênfase no excelente trabalho da estreante Stacy Martin e de Uma Thurman que, em uma única cena, faz a melhor atuação de toda a sua carreira.

    Todavia, "Ninfomaníaca" possui um problema que praticamente não é culpa do filme: é uma mera introdução, uma obra incompleta. A sensação de que está faltando alguma coisa é latente ao fim da sessão e mesmo em outras obras que já foram divididas em partes, como o último filme da franquia "Harry Potter", isso não apareceu de forma tão forte. O fim abrupto do longa representa muito bem isso e demonstra como foi um grande erro dividi-lo. A ninfomania de Joe aqui é apenas apresentada, delineada, como se fosse um esboço; e quando parecia que entraríamos com mais profundidade naquela personagem (pois é isto que "Ninfomaníaca" é: um estudo de personagem), o longa termina.

    É decepcionante, claro, mas não tira de forma nenhuma a eficiência do longa e sua qualidade narrativa e técnica. Fica até difícil mensurar uma nota ao filme, posto que nada mais é do que uma introdução - maravilhosamente bem realizada, é verdade -, mas ainda uma introdução. Talvez a ansiedade em que estou pelo segundo volume, seja o maior elogio que eu possa fazer a "Ninfomaníaca" e um atestado de sua competência.

Nota 8/10

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Crítica - The Following (Primeira Temporada)



     No dia 19 de janeiro, a série The Following volta à tela da FOX americana exibindo a premiere de sua segunda temporada. Criada por Kevin Williamson, o roteirista da franquia de terror "Pânico", The Following fez algum barulho com sua primeira temporada, entrando na lista dos vinte programas mais vistos da TV americana. E aqui vão os meus motivos para você NÃO dar uma chance para a série.


     A história é a do serial killer Joe Carroll (James Purefoy, de "Solomon Kane - O Caçador de Demônios") que escapa do corredor da morte e volta a cometer seus crimes, os quais são sempre inspirados na obra de Edgar Allan Poe. Então, é chamado de volta à ativa, para contê-lo, o ex-agente do FBI que o prendeu: Ryan Hardy (Kevin Bacon, de "Sobre Meninos e Lobos"). Desta vez, porém, Joe utilizou seu tempo na prisão para criar um culto em volta de si e conquistar seguidores que o ajudassem a cometer seus assassinatos.

     O primeiro episódio da temporada é excelente, não há como negar. Seu enredo observa o primeiro ato de Carroll ao fugir: perseguir a única sobrevivente de seus crimes anteriores. O episódio é movimentado e abre espaço para a criação de uma pesada tensão entre os dois protagonistas, fundada principalmente na qualidade do texto, na revelação de todo o grande plano do assassino e na dissecação dos personagens - Joe é um carismático vilão que vê todo o sentido no que faz, Ryan é um atormentado e solitário anti-heroi. Há ainda espaço para algumas interessantes reviravoltas e tudo parecia seguir um caminho interessante de série policial.

     Entretanto, com o passar dos episódios toda essa expectativa começa a cair por terra. Os primeiros até conseguem manter um pouco da sensação de frescor e qualidade da premiere, todavia, com o passar do tempo, o que dá para sentir assistindo à série é apenas que estamos sendo feitos de bobos. São utilizados à exaustão os mais variados clichês policiais e não há qualquer pingo de originalidade. Os problemas não seriam estes se, pelo menos, não insultassem nossa inteligência, né?

    O roteiro da série começa a se apoiar em saídas fáceis e no irreal. Aqui temos uma polícia americana absurdamente incompetente - incontáveis vezes os seguidores de Carroll conseguem fugir do FBI e, inclusive, se infiltrar em meio às suas equipes táticas. E, claro, toda vez que a situação complica para os vilões, aparece algum novo seguidor do serial killer que "sempre-esteve-ali-aguardando-esse-dia-chegar" para retardar as investigações, impedir o resgate da vítima etc. Isso sem mencionar que a primeira metade da série se apoia na tentativa de resgatar uma pessoa sequestrada e a segunda no... resgate de outra pessoa sequestrada.

     Quanto às interpretações, Bacon está bem, mas nada de outro mundo. Purefoy está naquela interpretação "fácil" de vilão simpático e não dá qualquer profundidade ao personagem (cinismo e sorrisinho não contam, tá?). Os destaques interpretativos para mim foram Natalie Zea (a ex-mulher de Joe, que é apaixonada por Ryan) e Annie Parisse (policial que acompanha Ryan nas investigações) que tornam suas personagens, as quais não são lá muito exploradas pelo roteiro, interessantes.

     Para finalizar, o maior motivo para não chegar perto da segunda temporada: o final cretino da primeira. Ok, já que eu estava sofrendo mesmo, que fosse até o fim para ver o que acontecia, né. E simplesmente fizeram uso de... saídas fáceis. O confronto final (que de final não terá nada) se resolve de maneira tola e... nem vou falar nada da "surpresa" final. Medíocre. Mais uma série medíocre de fácil digestão para o grande público.

Nota: 5/10