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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Clube de Compras Dallas

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    Alguns filmes se destacam muito mais pelo o que tem a dizer do que pela sua própria realização. Problemas estruturais que se tornam quase irrelevantes pela importância da discussão que colocam. "Clube de Compras Dallas" é um exemplo destes filmes. Apesar de ter uma construção razoavelmente competente, o longa chama a atenção muito mais pelos temas trazidos de sua inspiração por fatos reais - e pelas suas duas atuações principais, claro.

    O longa conta a história de Ron Woodroof (Matthew McCounaghey, "Magic Mike"), um homem do sul dos Estados Unidos, homofóbico, misógino, preconceituoso e ignorante que é diagnosticado com HIV. Na época da história, os anos 80, o vírus da AIDS era absurdamente atrelado à homossexualidade e tinha pouquíssimas formas de tratamento. Então, quando os médicos lhe dão 30 dias de vida, Ron tenta engolir todos os seus preconceitos e busca conseguir métodos alternativos de tratamento. Surge, por fim, o Clube de Compras Dallas - uma espécie de centro clandestino de distribuição de remédios ainda não aprovados nos Estados Unidos.

    Ron, claro, não muda da água para o vinho. Sua personalidade preconceituosa repugnante - ainda bem - não simplesmente desaparece durante o longa. Não que alguém se tornar esclarecido seja ruim - claro que não! -, mas isso seria um tremendo de um clichê e quebraria todo o equilíbrio do filme. De forma alguma ele vira uma alma caridosa em prol dos necessitados, pois a distribuição dos remédios só é feita para os que compram as cotas na "sociedade". Ah, e como ele conseguiu atrair público? Se tornando sócio de uma transexual, Rayon (Jared Leto, "Réquiem Para um Sonho").

    Apesar de manter parte de seus preconceitos, a redenção de Ron se dá pela sua crescente amizade e afeto que possui por Rayon. Alguns momentos, como a cena do supermercado, mesmo que resvalem em clichês, surgem com naturalidade durante o longa. É interessante perceber como os antigos amigos de Ron, tão preconceituosos quanto este, o abandonam e acabam sendo aqueles sobre quem ele antes depositava ódio - os gays - seus apoiadores.

    A relação entre Ron e Rayon não teria um quarto da força que tem não fossem seus intérpretes. Matthew McCounaghey se firma em sua sequência de ótimas atuações na década de 2010 - "Killer Joe", "Amor Bandido", "Magic Mike"... -. Seu já típico sotaque texano, se une à entrega física e à eficiência em acompanhar as mudanças de seu personagem durante o longa, numa interpretação poderosa. Já Jared Leto ressurge para o cinema em grande forma, com uma interpretação numa vibe Ryan Gosling, dizendo muito a partir de olhares e expressões. Os dois carregam o filme.

     A montagem da obra é irregular, gerando tanto momentos excelentes quanto criando situações aceleradas demais, que talvez demandassem mais calma na abordagem. A passagem do tempo é o maior exemplo disso - uma vez que os 30 dias de Ron viraram anos -, por vezes vira um amontoado de cenas em velocidade de cruzeiro, já em outras surge com grande naturalidade.

    Outra discussão colocada na roda pelo longa é sobre a indústria farmacêutica, que faz uso do desespero de pacientes em estado terminal para ter mais lucros. Entretanto esta vilanização pura e simples da medicina acaba enfraquecendo o filme. Muito disso porque aquela que seria o contraponto deste ambiente de corrupção e jogo de interesses, a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner, "Juno"), é uma das personagens mais apáticas e sem graça do ano. É quase insuportável aguentar a cara de mosca morta de Garner na tela.

    A temática gay, por sinal, não é estranha ao cineasta Jean-Marc Vallée. No excelente longa "C.R.A.Z.Y.", o diretor construiu com muita habilidade a descoberta e aceitação da homossexualidade no ambiente familiar. Aqui, mesmo que visto por um outro ângulo, o tema também não deixa de ser trabalho de forma engenhosa, sem resvalar em clichês. A sensibilidade de Vallée ao tratar do tema é sem dúvida digna de nota.

    Destacando-se mais pelas suas ideias e críticas do que como um filme propriamente dito, "Clube de Compras Dallas" se solidifica a partir de suas duas poderosas atuações masculinas. Mesmo que não seja uma obra perfeita, o saldo é muito positivo e Vallée certamente é um cineasta que merece atenção.

Nota 7/10

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Nebraska


    Alexander Payne é um diretor e roteirista que, em sua curta, porém formidável filmografia enfoca em homens comuns. Estes exemplares que partem em jornadas simples, mas que no fim revelam muito sobre eles. "Sideways", "As Confissões de Schmidt" e "Os Descendentes" são ótimos estudos de personagem, acompanhados de excelentes análises sobre a sociedade - em seus diferentes focos -. Em seu mais recente longa, "Nebraska", pela primeira vez Payne dirige um roteiro que não é de sua autoria, mas que não foge desta estrutura.

    Escrito por Bob Nelson, o roteiro conta a história de Woody (Bruce Dern, "Django Livre") e David (Will Forte, "Vizinhos Imediatos de 3º Grau"), pai e filho, que embarcam numa jornada após Woody receber uma carta dizendo que ganhou um milhão de dólares. Mesmo sabendo que se trata apenas de uma enganação e com os berros de reprovação de sua mãe, Kate (June Squibb, "Perfume de Mulher"), o filho se propõe a acompanhar o pai até a cidade onde supostamente deve retirar o prêmio. No meio do caminho, porém, David resolve reunir o pai e sua família que há tempos não se veem.

    Utilizando maravilhosamente bem a fotografia em P&B, que cumpre seu papel em criar um ambiente precisamente melancólico e desesperançoso, o longa embarca nesse road movie entre pai e filho. O reencontro de Woody com seus amigos e parentes não poderia ser pior e mais representativo em termos de prisma social. Unicamente interessados no dinheiro do suposto novo milionário, surgem débitos do passado aos montes. E os supostos momentos de união familiares são absolutamente desinteressados, com uma família que não consegue criar uma conversa minimamente decente. Homens que ficam assistindo ao jogo na TV e só trocam algumas parcas palavras para falar sobre carros.

    A construção de Nelson e Payne é eficiente na construção de sua metáfora social e quase sempre consegue desviar com habilidade da caricatura e do lugar-comum. Além de sua visão ampla sobre a família, o longa entra numa discussão próxima à vista em "As Confissões de Schmidt" sobre os efeitos da idade no ser humano. É, em última análise, um apanhado imagético sobre a vida. Tanto do ponto de vista do filho, esforçado em criar uma situação de felicidade e perseguir o sonho de seu pai que a qualquer momento pode partir; quanto do pai, que como diz a mãe "não vê o que ocorre ao seu redor metade do tempo".

    As atuações são certamente outro destaque. Bruce Dern, ganhador do prêmio de melhor ator em Cannes, está magistral e poderoso. June Squibb também está competentíssima e apaixonante no papel da "super sincera" Kate. Will Forte surpreende em uma interpretação crível e segura, assim como os demais coadjuvantes. Certamente um dos melhores elencos do ano.

     Mesclando humor e drama, como típico nas obras de Payne, o longa consegue construir uma transição eficaz entre ambos, sem se tornar irregular. Mas é certamente na sua vertente dramática que o filme guarda sua força, ao contar uma história emocionante, tocante e real. Um retrato social sincero sobre a vida e a forma como passamos por ela, com suas alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. Roteiro brilhante, direção competente, atuações magníficas e técnica eficaz alicerçam uma película memorável e simples, como nossa vã existência.

Nota: 8/10
    

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Philomena



    "Philomena" é um filme simples e que se baseia numa história real  para construir uma obra que, em sua curta duração, consegue discutir temas certamente polêmicos sem cair no sentimentalismo barato ou tentar chocar o espectador a qualquer custo. Stephen Frears ("Ligações Perigosas") cria uma trama baseada em seus atores competentíssimos e num roteiro muito bem costurado, pegando para si a função de apenas acompanhar o desenrolar de tudo, com um trabalho de câmera convencional, porém eficiente.

    Philomena (Judi Dench, "007 - Operação Skyfall"), na adolescência, engravidou de um menino, foi condenada a uma vida servil num convento e separada de seu filho, o qual foi vendido para um casal de americanos contra sua vontade. Décadas depois, ela conta com a ajuda de um jornalista desempregado (Steve Coogan, "Trovão Tropical") na busca pela criança desaparecida.

    Seria um filme comum, com gostinho de dejá vù, não fossem as excelentes subtramas costuradas pelo roteiro de Jeff Pope e do próprio Coogan. Além de, claro, as maravilhosas interpretações de Coogan e, principalmente, de Judi Dench. Ambos convivem em profunda oposição: pelos modos de agir, pensar e encarar a vida. Entretanto a química entre ambos é excelente, gerando uma relação de amizade e apreço por parte do espectador que certamente é algo difícil de se criar.

    Suas personalidades são construídas de forma indireta e bem realizada, a partir de diversas situações comuns, porém de fácil percepção até para o espectador mais desatento. Evita, assim, resvalar em narrações desnecessárias ou diálogos que explicitem tudo. Cenas como a do café da manhã no hotel são básicas, porém de importante força narrativa e ajudam a aprofundar ainda mais a essência da dupla principal.

    Na verdade, o foco do filme nunca fica preso à busca pelo filho perdido - essa situação até se resolve rapidamente -, o longa busca, sim, trazer à tona vários outros temas importantes e, o mais importante, criar uma personagem densa e poderosa (Philomena). Uma passagem muito bem construída por situações como homofobia, anticlericalismo e crimes da Igreja Católica.

    Sem cair no melodrama, "Philomena" é um drama poderoso. Alicerceado em seus personagens contrastantes e densos, além de suas discussões políticas e religiosas que fluem muito bem durante o longa. É um filme delicioso, simples e que certamente cairá nas graças do grande público. E merece isso.

Nota 8/10

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Grande Beleza


    "A Grande Beleza" é um filme contemplativo. Não muito fácil de se assistir também, é verdade. Pela própria intenção de Paolo Sorrentino com sua obra, não poderia ser um filme de estrutura narrativa comum, posto que não possui uma linha única em sua história. Se trata de um filme de situações, em que o todo não forma uma sequência narrativa totalmente amarrada em si, mas sim um mosaico de fatos, reflexões e simbolismos.

    Sorrentino busca, através dos olhos de um já sexagenário escritor, construir um retrato da sociedade italiana contemporânea. Reservados os devidos momentos políticos e sociais distintos, se aproxima muito do cinema de Federico Fellini - o que sempre é lembrado e relembrado nos textos por aí sobre o filme -. Logo em seus primeiros momentos o longa já deixa claro que os tempos são outros, quando durante a festa de aniversário de 65 anos de Jep Gambardella (Toni Servillo, de "As Consequências do Amor"), o protagonista, vemos uma alta sociedade envelhecida e deslocada.

    Construída com eficácia pelo roteiro do próprio Sorrentino acompanhado de Umberto Contarello, essa viagem analítica em meio às disfunções e futilidades que permeiam a sociedade italiana se mostra extremamente competente em cumprir seu objetivo de contemplação, adoração e julgamento - tudo ao mesmo tempo -. É um misto de passeio turístico com crítica social e viagem pela arte romana, espalhado pelas 2h20 de duração do longa (que poderia, sim, ser menor sem perder força - Sorrentino pecou pelo excesso -).

    Além disso, o filme se destaca também por sua parte técnica. A direção do italiano é competente e - apoiada na belíssima fotografia -, traz um excelente trabalho de câmera, que amplia os horizontes do filme e o engradece ainda mais. Os créditos finais, acompanhados de um tour turístico pela capital italiana demonstram bem as belas imagens que "A Grande Beleza" (hum...) nos proporciona.

    Após toda a jornada e passadas quase duas horas de sua duração, o longa chega a outro de seus problemas: os sucessivos "finais-que-não-são-finais-só-parecem-ser-finais". São diversas cenas que perfeitamente serviriam como fechamento de tudo aquilo, mas Sorrentino parecia querer mais. Claro, há muita a coisa a se dizer num filme deste tipo, que não se prende a uma estrutura simples e se horizontaliza. Entretanto o espectador, já até um pouco cansado e atordoado - não é um filme fácil, eu disse -, não está mais tão arrebatado pela jornada.

    Em uma visão geral, "A Grande Beleza" é um grande filme, extremamente bem executado e que cumpre suas enormes pretensões com particular maestria e elegância. Os deslizes, causados pelo excesso, seja na duração, seja pela demora para o seu desfecho; se mostram bem menores quando comparados à realização de Paolo Sorrentino.

Nota 8/10


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Álbum de Família


   Chega final de ano e já podemos esperar aquela safra de filmes feitos sob medida para o Oscar. Entre os diversos tipos destes tais, temos os filmes vindos de livros ou peças teatrais renomados, recheados de atores do primeiro time, os quais ficam responsáveis por segurar os já fortes textos do formato original. "Álbum de Família" entra totalmente nesta categoria.

   Baseado na peça ganhadora do Pullitzer e do Tony (o Oscar do teatro), o longa conta a história da família Weston que acaba por se reencontrar novamente em razão do desaparecimento do patriarca da família, Beverly (Sam Shepard, de "Os Eleitos"). A partir daí, é um desfile de rostos conhecidos do grande público: Meryl Streep ("O Diabo Veste Prada"), Julia Roberts ("Uma Linda Mulher"), Ewan McGregor ("Star Wars"), Abigail Breslin ("Pequena Miss Sunshine"), Benedict Cumberbatch ("Sherlock"), Juliette Lewis ("Um Drink no Inferno"), Margo Martindale ("A Órfã"), Chris Cooper ("Adaptação") e Julianne Nicholson ("Law and Order: Criminal Intent").

   Alguns você quase nem lembrará que passaram pela tela - McGregor, Breslin, Cumberbatch e Nicholson -, outros caem no lugar-comum irritante - Lewis - e outros se destacam - Streep, Martindale, Cooper e Roberts -. "Álbum de Família" se torna, no fundo, um filme carregado pelos atores. Na verdade, pelas atrizes.

   Adaptado para o cinema pelo próprio autor da versão teatral, Tracy Letts, o roteiro do longa se mostra deficiente na transformação da peça em filme - algo que o próprio Letts já havia feito muito bem em "Killer Joe - Matador de Aluguel" -. A presença da teatralidade ali é pulsante e o texto pouco faz para amenizá-la, uma coisa que, por exemplo, "Deus da Carnificina" de Roman Polanski fez com razoável competência.

    Muita da culpa disso ocorrer deve também ser creditada ao diretor do longa, John Wells ("A Grande Virada"), que num trabalho sem qualquer personalidade praticamente abdica da função de diretor, fazendo um uso de câmera absolutamente convencional e sem sal. Wells joga a responsabilidade para cima de seus time de atores - façam o filme! - e se finge de morto. Não há qualquer trabalho quanto a ângulos ou enquadramentos e deve ter sido a intenção mesmo.

   Se diretor e roteirista não cumprem suas devidas funções, que reste aos atores tornar "Álbum de Família" digno de nota, né. E de certa forma é isso mesmo que acontece. Meryl Streep está over no ponto certo e entra num embate ferino com Julia Roberts para saber quem seria a dona do filme - ganhamos nós, com duas atuações espetaculares -. Já Martindale e Cooper, em composições bem mais sutis e comendo pelas beiradas, também se destacam.

    No fim da sessão, fica a sensação de um longa absolutamente esquecível pela sua falta de ambição (impregnada na fraqueza do diretor e no engessado roteiro), cheio de subtramas pouco exploradas (o que se vê pela quantidade de membros da família que nem lembramos o nome), mas que compensa pela aula de atuação que recebemos de Streep e Roberts.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - Blue Jasmine


    Eu não faço questão de esconder de ninguém que tenho sempre um pé atrás para assistir a um filme de Woody Allen (para não dizer que tenho os dois). Eram cinco filmes vistos, até então, e só "Meia-Noite em Paris" conseguiu entrar na lista dos que gostei. Portanto foi com uma razoável dose de boa vontade - e muito apreço a Cate Blanchett - que me dignei a sair de casa para assistir a "Blue Jasmine". E até que saí satisfeito da sessão.
    
    O longa acompanha a história de Jasmine (Cate Blanchett, de "O Aviador"), uma ricaça que se vê no fundo do poço ao perder todo seu dinheiro, o qual foi confiscado pelo governo após a prisão de Hal (Alec Baldwin, de "Simplesmente Complicado"), o marido dela. Então, Jasmine se vê obrigada a ir morar com sua irmã, Ginger (Sally Hawkins, de "Simplesmente Feliz"), numa casa simples em um bairro de classe média de San Francisco.

    A comparação de Jasmine com Blanche DuBois (personagem marcante interpretada pela fantástica Vivien Leigh em "Uma Rua Chamada Pecado", de Elia Kazan) é inevitável. Na verdade, as histórias são absurdamente próximas - o que é obviamente proposital, Woody assumidamente ama o longa de Kazan -. Mulheres acostumadas ao luxo, que, ao se verem sem dinheiro, buscam refúgio na casa de suas irmãs. Mulheres que buscam um homem que possa as sustentar - porque, claro, merecem tudo do bom e melhor -. Mulheres com o emocional profundamente abalado e a um passo de perder todo o controle de si. E, claro, mulheres que menosprezam os parceiros românticos de suas irmãs.

   Tal qual no longa de 1951, em que Vivien Leigh dominava a tela, Cate Blanchett é um monstro em cena durante "Blue Jasmine". Apoiada na cuidadosa construção da personagem no próprio roteiro de Woody Allen, a atriz expande as nuances de Jasmine ainda mais. É uma interpretação hipnotizante, merecedora de cada prêmio que vem recebendo e do Oscar que ainda receberá. Intensa e sem se prender aos tiques típicos de Allen, Blanchett é a dona do filme - "Blue Jasmine" não seria um quarto do que é sem ela -.

    Também importantíssima na trama é a irmã de Jasmine, Ginger. Contrapondo quase totalmente a personalidade da irmã, a personagem de Hawkins é apresentada de forma bem mais sutil. A diferença entre ambas fica ainda mais notável a partir dos flashbacks que o roteiro amarra muito bem durante a película. O encontro de ambas em Nova York durante a "fase rica" de Jasmine é marcante, da mesma forma que a discussão que travam nos momentos finais do filme. São maneiras totalmente opostas de encarar a vida.

    "Blue Jasmine" é, na verdade, um filme de personagens muito bem construídos, porém é em seu próprio roteiro que residem algumas de suas falhas. Allen, talvez priorizando o estudo de personagens, constrói um roteiro que acaba caindo em saídas fáceis. A resolução do romance de Jasmine com Dwight (Peter Sarsgaard, de "A Órfã") é totalmente abrupta e até preguiçosa, se pararmos para pensar, e os diálogos por vezes caem na armadilha de serem expositivos demais.

   Por fim, o longa acaba por ser um trabalho bem distante das últimas coisas que vimos de Woody Allen, se apoiando bem menos na comédia. Talvez por isso tenha conseguido conquistar uma simpatia que ainda não consegui sentir por muitos dos seus filmes. Apesar dos problemas, "Blue Jasmine" é um ótimo filme, apoiado muito mais na magistral interpretação de Cate Blanchett do que no estilo de Allen e que vale uma conferida.

Nota 7/10

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Especial Oscar: Crítica - A Caça



    Thomas Vinterberg, diretor de "A Caça", foi o criador do movimento Dogma 95, junto de Lars Von Trier. Para quem não sabe, ele é constituído por dez regras cinematográficas que tinham como objetivo resgatar a essência do cinema, colocando restrições quanto ao uso de tecnologias nos filmes. Por exemplo, impõe-se o uso da câmera na mão, a não-utilização de iluminação artificial e a proibição de ações "superficiais" na história, ou seja, tudo que ali ocorrer deve ser totalmente real - ou seja, se quiser uma ação x aconteça, ela tem que ocorrer fisicamente (sem montagens) -.

    É interessante notar como tanto Von Trier quanto Vinterberg já se afastaram um pouco das diretrizes do Dogma 95. Ambos fizeram apenas um filme cada que se encaixasse totalmente nele: "Os Idiotas" e "Festa de Família", respectivamente. No seguimento de suas carreiras, apesar de manter o estilo narrativo focado em personagens, suas técnicas cinematográficas foram sendo ampliadas. Notamos, hoje, com os lançamentos "Ninfomaníaca" e "A Caça" que câmera exclusivamente na mão e luz somente natural são coisas deixadas de lado.

    Mas, curiosidades de lado, vamos falar sobre "A Caça", porque é para isso este texto. O longa dinamarquês parece ter sido o retorno à glória de Vinterberg, já que desde "Festa de Família" ele não obteve tanto reconhecimento de público e crítica. E, sim, o reconhecimento é merecido. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e também ao Globo de Ouro, o filme conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen, de "007: Cassino Royale"), um professor de jardim de infância, que tem sua vida transformada em um inferno quando toda a cidade se volta contra ele devido a uma acusação infundada.

    Klara (Annika Wedderkopp), uma de suas alunas e filha de seu melhor amigo, acaba por construir um afeto "excessivo" em relação a Lucas e, quando este a rejeita, a menina fica profundamente triste. A fraqueza emocional de uma criança tão pequena, então, faz a diferença e a garota - repetindo algo que ouvira do seu irmão - diz à diretora do colégio que Lucas mostrou a ela seu órgão genital. É o início da via crucis do professor. De um homem cheio de amigos, que obteve a guarda do filho e reencontrava o amor em uma de suas colegas de trabalho; a acusado injustamente de um crime que não cometeu, linchado socialmente e afastado do filho.

    O espectador onisciente, que sabe toda a verdade, vira cúmplice do sofrimento deste homem e dos males do pré-julgamento. O roteiro, assinado por Vinterberg ao lado de Tobias Lindholm, é eficiente em mostrar a crescente tensão presente na história - muito apoiado também, é claro, no trabalho de direção do dinamarquês. Desde os primeiros momentos, quando a acusação vai tomando forma e as pessoas começam a virar as costas para Lucas; até o momento de quase total esgotamento mental e abandono social em que o professor é colocado - apenas seu filho e um amigo se mantém ao seu lado -. É chocante e deixa o espectador absolutamente angustiado.

    Além disso, muita da força de "A Caça" reside nas atuações de seu elenco. Annika Wedderkopp, intérprete de Klara, é extremamente competente, numa personagem difícil. Mas o grande destaque é Mads Mikkelsen. Numa interpretação extremamente contida, Mikkelsen impulsiona seu personagem, ampliando cada momento de dor e sofrimento, numa interpretação feita nos mínimos detalhes e que explode em uma das cenas finais - numa igreja -. É a melhor cena do filme e muito por causa do trabalho do ator.

    Na parte técnica, há de se mencionar a brilhante fotografia de Charlotte Bruus Christensen, que caminha junto à história do filme, e vai reduzindo as cores quentes e a "alegria" conforme a evolução da situação de Lucas. Também se destaca a montagem, que torna o filme ágil, porém contemplativo, na medida certa - nenhuma cena é longa ou curta demais -.

    Finalmente, dois comentários sobre o final do filme (se não o viu, não leia este parágrafo): muitos reclamaram sobre Lucas e o povo da cidade voltarem a conviver em harmonia e nisto não vi problema nenhum, posto que ele era inocente, oras; outros reclamaram do final dúbio (ou não), em que o professor supostamente quase é atingido por uma bala. Para mim, se trata de um justo lembrete de Vinterberg: mesmo declarado inocente, aquela acusação caminharia com Lucas pelo resto de sua vida, assim como a desconfiança.

Nota 8/10

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Crítica - Azul é a Cor Mais Quente

    Esta crítica é, na verdade, uma análise geral de toda a história do longa, portanto possui alguns spoilers. Nada de muito sério ou prejudicial, mas é bom avisar aos desavisados que ainda não viram o filme (mas devem vê-lo logo, vão, corram pro cinema!).


    É assustador como alguns filmes chamam a atenção de alguns pelos motivos errados. Quantas pessoas não ouviram falar de "Azul é a Cor Mais Quente" devido à tal "cena-de-sexo-lésbico-de-quase-dez-minutos"? E é ainda mais assustador pensar que algumas pessoas só vão ao cinema assisti-lo por causa disso. Por outro lado, é ótimo que muitas que o assistem consigam perceber o que o filme de fato é, e notar que a tão falada cena não está ali para chocar ninguém e possui um profundo valor narrativo. Julgamentos à parte, vamos falar do longa.

    Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes, "Azul é a Cor Mais Quente" é uma adaptação de uma HQ francesa escrita por Julie Maroh. O filme, dirigido por Abdellatif Kechiche (de "O Segredo do Grão"), conta a história de Adèle (Adèle Exarchopoulos, de "Quando Eu Era Sombrio") e sua busca por si mesma durante a juventude. Ela não sabe o quer para seu futuro, não se compreende, não se adapta ao mundo: ela é adolescente. Pressionada pelas amigas (e por que não por si mesma?), Adèle aceita sair - e perder sua virgindade - com um garoto de seu colégio, mas ela não se sente bem com ele, aquilo não a faz feliz, não a completa.

    Em seu início, o roteiro, assinado pelo próprio Abdellatif Kechiche junto de Ghalia Lacroix, pontua muito bem o universo perdido, desfuncional e cheio de incertezas da protagonista. Ela não se parece com suas amigas, não sente atração pelo garoto que todas acham lindo, está fora do padrão. Aos poucos, vamos entrando na jornada de descoberta de Adèle. O grande ponto de virada é quando ela cruza na rua com uma garota de cabelos azuis e não mais consegue tirá-la da cabeça. E, então, numa bela cena, vemos Adèle fazendo sua primeira descoberta: seu próprio corpo - sim, o autoprazer.

    Inquieta e sedenta por se descobrir ainda mais, Adèle se joga ao mundo "alternativo". Ela quer se compreender, oras. E é aí que, para sua surpresa, ela reencontra num bar a jovem de cabelos azuis que viu na rua: Emma (Léa Seydoux, de "Missão: Impossível - Protocolo Fantasma"). Se o filme já era encantador por mostrar de forma tão real e bonita o início do caminho de Adèle, é na construção da amizade e do relacionamento dela com Emma que ele deslancha. A união da direção precisa de Kechiche com a fotografia competente e, acima de tudo, com as interpretações memoráveis das duas protagonistas catapulta o filme à aura de melhor filme do ano.

    Cada cena, cada olhar, cada diálogo, cada toque, tudo grita objetivo e realismo. E a longa cena de sexo - que não é a única do filme - carrega tanto simbolismo quanto poderia. Pode-se compará-la com aquela do começo do filme, de Adèle com o amigo do colégio. Observar a forma com que, a partir dali, a protagonista nunca mais seria a mesma. Ou então notar que, naquele momento Adèle se torna ainda mais próxima de nós - não há mais tabu -. A imagem ali pulsa, cheira, fala, tem textura e explode.

    E é assim que o filme se constrói durante suas três horas de duração. Adèle se autodescobre passo a passo. De garota que não sabia o que fazer da vida no final do ano, até mulher com objetivos profissionais traçados. De garota que tentava se adaptar aos padrões sociais, até mulher que busca sua própria felicidade. De garota que tinha nojo de frutos do mar, até mulher que se delicia com ostras. Ela desbravou mundos diferentes, conheceu coisas novas, ela viveu. Esta foi (e é) a vida de Adèle, que ainda não acabou - já que estamos nos tais capítulos 1 e 2 -. Se a Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski já dizia que a liberdade é azul; Adèle nos conta que, além disso, azul é a cor mais quente.

Nota 9/10
    

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Crítica - Ninfomaníaca: Volume 1


    Muito se falou neste filme antes de seu lançamento. Criou-se toda uma expectativa em torno dele. É até estranho notar que mesmo pessoas que não são muito ligadas ao mundo do cinema já ouviram falar do longa (e inclusive pretendem assisti-lo). Quando seu diretor, Lars Von Trier, que já não é nem um pouco alheio à polêmica, anunciou que faria um filme sobre uma ninfomaníaca, a curiosidade foi instantânea. Von Trier já é conhecido pelos cinéfilos como um diretor despudorado e que tem como característica de seus filmes o fato de estes serem, em grande parte, chocantes (e nisso há quem veja uma qualidade ou um defeito).

    De "Dogville" à "Melancolia", passando por "Dançando no Escuro", "Anticristo" e "Manderlay" - isso para citar seus longas mais conhecidos -, Von Trier sempre mostrou seu cinema de forma clara e sem pudor, o que - querendo ou não - sempre gerou polêmica em meio aos espectadores (nós não estamos exatamente acostumados a ver órgãos genitais ou cenas de sexo em close nas sessões de cinema por aí, né?). Um filme sobre uma ninfomaníaca parecia uma carta branca para Von Trier fazer todas as suas estripulias e ainda ampliá-las. Mas eis que ele nos surpreende novamente.

    Talvez, é claro, esta nossa análise esteja deveras prejudicada pela censura que o filme sofreu em sua fase de produção (cerca de uma hora do filme foi cortada) e pela divisão em dois volumes (o segundo sai em março, no Brasil). Entretanto, é o material que recebemos - e é o material que Von Trier aceitou entregar -. E ele, nem de longe, é seu material mais chocante ou polêmico (este posto ainda pertence a "Anticristo", com toda a certeza). Na verdade, se trata de um filme bem-comportado, em que tudo na tela se mostra justificável pela trama e nada excessivo.

    No longa, Joe (Charlotte Gainsbourg, de "21 Gramas") é uma mulher de 50 anos que é resgatada da rua por Seligman (Stellan Skarsgård, de "Thor"). Ao observar o estado deplorável em que a mulher se encontra, o homem se interessa por saber o que houve com ela. A partir daí, Joe começa a contar suas experiências a ele. Neste primeiro volume, ela ainda é uma jovem (interpretada pela estreante Stacy Martin) e sua ninfomania começa a ser delineada, desde a perda de sua virgindade até o momento em que ela chega a transar com dez homens por noite.

    Um dos principais méritos narrativos do filme é conseguir colocar uma certa leveza ao tema, que por si só já é tão pesado. "Ninfomaníaca" é um dos filmes mais bem-humorados do diretor dinamarquês e chega a ser impressionante a quantidade de momentos em que todo o público da sala de exibição ri. Isso, aliado aos roteiros já normalmente envolventes e bem estruturados de Von Trier, atrai o espectador. Maior evidência disso é a decepção quando o filme subitamente termina, posto que teremos que esperar dois meses para descobrirmos o que houve com Joe para que ela chegasse ao fundo do poço onde está. São duas horas de filme que passam muito rápido.

    Não se pode deixar de mencionar, claro, outros grandes destaques do filme: a direção precisa de Von Trier - que desta vez faz uso de uma câmera bem mais "fixa", o que até causa estranheza aos já habituados às típicas chacoalhadas na imagem geradas pelo uso da câmera na mão -; a excelente direção de fotografia de Manuel Alberto Claro; as ótimas atuações (até Shia LaBeouf está bem), com ênfase no excelente trabalho da estreante Stacy Martin e de Uma Thurman que, em uma única cena, faz a melhor atuação de toda a sua carreira.

    Todavia, "Ninfomaníaca" possui um problema que praticamente não é culpa do filme: é uma mera introdução, uma obra incompleta. A sensação de que está faltando alguma coisa é latente ao fim da sessão e mesmo em outras obras que já foram divididas em partes, como o último filme da franquia "Harry Potter", isso não apareceu de forma tão forte. O fim abrupto do longa representa muito bem isso e demonstra como foi um grande erro dividi-lo. A ninfomania de Joe aqui é apenas apresentada, delineada, como se fosse um esboço; e quando parecia que entraríamos com mais profundidade naquela personagem (pois é isto que "Ninfomaníaca" é: um estudo de personagem), o longa termina.

    É decepcionante, claro, mas não tira de forma nenhuma a eficiência do longa e sua qualidade narrativa e técnica. Fica até difícil mensurar uma nota ao filme, posto que nada mais é do que uma introdução - maravilhosamente bem realizada, é verdade -, mas ainda uma introdução. Talvez a ansiedade em que estou pelo segundo volume, seja o maior elogio que eu possa fazer a "Ninfomaníaca" e um atestado de sua competência.

Nota 8/10

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Crítica - Shame


     Brandon (Michael Fassbender, de "X-Men: Primeira Classe") é um homem rico, bem-sucedido, viciado em sexo e solitário; que tem sua rotina diária de prazer ilimitado e sem significado interrompida pela chegada de sua irmã, Sissy (Carey Mulligan, de "O Grande Gatsby"), que sofre por não conseguir se firmar em um relacionamento amoroso. Duas almas em profundo sofrimento. E que me atingiram como uma avalanche.

    Eu consigo lembrar exatamente o sentimento que tive ao final de Shame. Só não consigo explicar. Um dia nublado em São Paulo. Eu saindo do cinema da Livraria Cultura. Fiquei andando pela avenida Paulista - indo e voltando num loop - por mais de uma hora, a fim de digerir aquilo tudo. Ah, a catarse... como é bom quando um filme deixa uma marca em você, né? Porque os detalhes dele você pode até esquecer, mas aquilo que ele te causou vai ficar impregnado na sua mente. Shame me fez sentir, me perturbou, me deixou vulnerável, me atropelou.

    É complicado escrever uma crítica para este filme. Críticas demandam tecnicidade, objetividade... Normalmente, uma estrutura de "sinopse-elogio-elogio-defeito-defeito-ressalva-acerto-nota". E o maior elogio que eu poderia fazer ao filme é puramente subjetivo. Se o cinema é feito de sensações, Shame constituiu uma das minhas maiores - e mais perturbadoras. Todavia, mesmo depois de horas encarando o notebook, demorei a colocar em palavras a forma como ele me destruiu.

    Com certeza a atuação precisa, sensacional, memóravel - insira mais quantos adjetivos positivos quiser - de Michael Fassbender no papel principal foi uma delas. Mas não foi só isso. A belíssima cena de Carey Mulligan e sua frágil Sissy cantando "New York, New York" em uma versão absolutamente sensível ajudou, é claro. Ah, temos a direção primorosa de Steve McQueen, que faz um dos melhores usos da câmera e seus enquadramentos dos últimos tempos.

    Também já coloquei na conta o trabalho de roteiro do próprio McQueen e Abi Morgan que constrói o forte contraponto entre os personagens de Fassbender e Mulligan de forma brilhante até que cheguemos ao inevitável conflito final que... ah, as palavras faltando de novo. Não há cena, enquadramento ou diálogo inútil. Tudo ali é importante. Tudo ali é fundamental na construção das personalidades, dos sofrimentos internos, das emoções de ambos os personagens. Uma vez que, apesar de o personagem principal ser Brandon, sua irmã não está presente tão somente como um contraponto. 

     Na verdade, Shame não observa só o vício em sexo. Observa o elemento sexual. De maneira crua, sem fetiches. Isso está presente desde a cena inicial com o nu frontal de Fassbender até o final. Final que diz muito. Ele resume o que é o filme: as respostas estão nos olhares, na expressão do personagem, nos enquadramentos. E é tudo isso. Junto e espalhado pelos 99 minutos do longa, que tornou Shame um de meus filmes preferidos, me destruiu e me deixou pensativo por horas.
    
Nota: 9/10

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Crítica - Marcas da Violência (por Gustavo Hackaq)


    E aí, em meio a esse meu hiato de textos no blog, mais um ótimo texto cedido pelo digníssimo Gustavo Hackaq. Gostaria de dizer que concordo com cada letra aqui postada e que a minha nota para a obra é 5 (porém eu gosto de outros filmes do Cronenberg, ok?).

   “Dar notas a filmes” não é uma ciência exata, obviamente. É uma das artes mais subjetivas que existem, obviamente novamente. ''Marcas da Violência'' foi o filme definitivo para cimentar essa tese na minha cabeça.

   Para não enrolar muito, o filme conta a história de um homem que tem a loja assaltada e acaba matando os assaltantes. Depois disso, é perseguido por outros homens nos seus clichês carros lustrosos, óculos escuros e ternos impecáveis, que dizem que ele não é quem afirma.

   Desde o primeiro segundo do aparecimento dos mafiosos, nós já sabemos que eles falam a verdade e o protagonista (Viggo Mortensen, aproveitando o hype em torno de sua atuação em ''O Senhor dos Anéis'') é um mentiroso. Todos os lugares-comuns do “eu sei quem você é, por isso não finja”, que funcionava muito bem até nos filmes do Hitchcock (''Intriga Internacional'', por exemplo) são terríveis aqui, e repetidos à exaustão. E a atuação de Mortensen não convence em momento algum (é até engraçado ver, quando ele finalmente assume sua real identidade, tentar mudar a forma de atuar para mostrar, pateticamente, o outro eu).

   O filme também é usado para mostrar a exemplar cultura norte-americana, com os filhos da América comendo seus usuais cereais com leite; as líderes de torcida levando o namorado escondido para sua casa (essa cena pelo menos é boa) e tentando fazer silêncio, afinal, como já vimos em mil filmes de terror, os pais dela estão dormindo no quarto ao lado; as rivalidades fúteis geradas por baseball; os valentões aterrorizando os mais fracos em meio de palavrões entre os corredores com armários escolares etc etc etc etc. E, no caso, a violência, abusada aqui (e que nunca choca, não graças ao excesso de sangue que vemos atualmente; filmes violentamente bons, ''Irreversível'', para citar algum, choca com facilidade), mas de forma besta e plástica (convence em termos de efeitos-especiais, mas é artificial) é outro símbolo cultural do país, todavia nem isso soa “culto” ou “profundo”, apesar de inúmeros expectadores do filme acharem os adjetivos entre aspas anteriores no âmago do filme ou sabe lá onde.

   Olhando o título original da fita, 'A História da Violência', vemos o quão pretensioso ele é. Com um título desses esperamos um estudo aprofundado sobre a psique humana naturalmente e essencialmente violenta, porém nada disso consta. É tudo banal. Tem justificativa? Sim, tem, mas e?! É essa a pergunta que fica, “e daí tudo isso?”. Fora que todas, eu repito, TODAS as ações e acontecimentos são previsíveis até a estratosfera. O telefone toca *é um dos caras da vida dele de verdade e vai o chamar pra ir à Filadélfia*; ele chega em casa *ninguém fala com ele, mas a filhinha será a única*, e é exatamente isso que acontece, só para exemplificar algumas cenas.

  Para fechar unindo à minha ideia inicial, vejo este filme com notas ótimas e sendo chamado até mesmo de “obra-prima”, para meu total assombro. Talvez eu tenha problemas, ou, sem pretensão, se possível, seja o contrário.         Nota 4/10

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Crítica - O Artista



    ''O Artista'' pode ser visto - e analisado - de muitas formas. No senso comum, um filme em P&B e mudo é o cúmulo da chatice; para outros é a nostalgia. É claro que existem outros pontos de vista, mas, no fim das contas, quase todo mundo acaba se agarrando à alguma dessas duas visões. Portanto, é razoável dizer que aqueles que se prestem a assistir a esse longa possuem uma aceitação cinematográfica mais 'abrangente' e pertencem ao segundo grupo de pessoas que citei. Levando isso em consideração, as análises do filme apareceriam de três formas: ''é ruim, e por tentar ser uma homenagem se enfraquece mais'', ''é sem personalidade por homenagear 'demais''' ou ''é excelente e ser uma homenagem realça-o ainda mais''. Tendo a ficar com a terceira forma.


    O filme, dirigido por Michel Hazanavicius, percorreu uma longa estrada desde o Festival de Cannes até as suas dez indicações no Oscar. Nessa entrada, acumulou excelentes críticas e o favoritismo para a premiação da Academia, o que é perfeitamente justificável: se trata de uma obra que se encaixa muito bem no contexto das premiações. Uma homenagem ao cinema mudo, praticamente esquecido com a chegada do som nos anos 20. Uma homenagem que há muito tempo não vinha. 


    A história não deixa de ser um 'remendo' de ''Cantando na Chuva'' com ''Crepúsculo dos Deuses'': George Valentin (Jean Dujardin) é um famosíssimo ator que cai no total esquecimento com a chegada do som à sua produtora, no fim dos anos 20. Em contraponto, Peppy Miller (Bérénice Bejo) vê sua carreira deslanchar após trabalhar em um dos últimos filmes de George. Essa oposição de situações 'fracasso/sucesso' é muito bem utilizada por Hazanavicius: em uma cena, ele desce a escada de um prédio, enquanto ela sobe; ele se senta no lado mais 'escuro' do restaurante, e ela no mais 'claro; além da óbvia situação de o novo filme dela ter filas na porta e o dele ser apresentando num cinema quase vazio.


    Uma das principais qualidades do filme é a forma como encara sua situação de homenagem e retrato cômico da época; e como impõe isso inteligentemente na sua estrutura. A já 'clichê de todas as críticas' cena inicial em que nos é mostrado um dos filmes de George, em que ele - capturado pelo vilão - diz: ''Não vou falar!'' (referência a algo do tipo: esse filme é mudo, sim!); o minúsculo papel de Malcolm McDowell (o Alex, de Laranja Mecânica), denunciando o esquecimento dos outrora grandes atores; o nome de Peppy crescendo aos poucos nos créditos de cada filme seu, entre outros exemplos. Estrutura brilhantemente dirigida e roteirizada por Hazanavicius.


    Além disso, ''O Artista'' se apóia nas boas atuações de seus atores, destacando o expressivo Jean Dujardin e a eficiente Bérénice Bejo. Desconhecidos, porém bons nomes. Outros pontos positivos são os mais técnicos, como Figurino e Direção de Arte que reconstroem bem o ambiente da época. A Trilha Sonora (é ela quem anda de mãos dadas conosco durante a mudez do longa), que pontua com mais uma homenagem ao usar a trilha de ''Um Corpo que Cai'', também se destaca - tal qual sua ausência, em um momento chave.


    É uma grande homenagem, porém por si só ''O Artista'' já é um ótimo filme, que brilha em diversos pontos. Mais um deles, e que também merece recordação, é o pequeno cachorro de George, responsável pelas melhores cenas cômicas. Por fim, depois de tanta nostalgia, a boa cena final passa o traço e encerra o filme. Encerra um culto à imagem sobreposta ao som, à pirotecnia. Não que não seja 'bom' termos os efeitos especiais atuais, porém é divertido relembrar às vezes da qualidade do cinema em suas origens.    Nota: 8/10

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Crítica - Histórias Cruzadas


    ''Histórias Cruzadas'', que chamarei aqui de ''The Help'', o título original, por um motivo que mais para frente explicarei; não é um bom filme. Poderia ser, mas não é. Muita gente talvez vá achar isso, mas não é. A razão para isso é sua concepção totalmente equivocada, trazida de um livro homônimo de Kathryn Stockett. Equivocada, por quê? Porque não prega a igualdade racial, como esperado. É um filme racista. Maniqueísta. Encaixe o adjetivo que desejar.


    As 'histórias que se cruzam' são as da jornalista Skeeter (Emma Stone), que tem como sonho escrever um livro; e as das empregadas negras de sua cidade natal, no estado do Mississippi. Um Mississippi da década de 60, marcado pela segregação racial - regulamentada por lei - e pela violência contra os negros. O ambiente estava ali, pronto para um bom filme. Só que o resultado ficou aquém, bem aquém. Tão aquém que, para citar qualquer ponto positivo do longa, você, necessariamente, precisa introduzir algum negativo.


     Num primeiro exemplo: o elenco de ''The Help'' é um dos melhores do ano, sim! Viola Davis (indicada ao Oscar), como a doméstica Aibileen, faz um trabalho absurdamente sensível e expressivo - é uma das melhores atrizes atuais -; entretanto, a empregada é um estereótipo forçadíssimo. A mulher 'sofrida' e sozinha é desenvolvida pelo roteiro de uma forma tão engessada quanto possível. Um milagre interpretativo de Viola. Culpa de Tate Taylor. Uma outra grande atriz também salvou uma personagem fraca: Jessica Chastain (indicada ao Oscar também). 


    O papel da 'patroa liberal' Celia Foote, nas mãos de uma qualquer, sairia apenas uma mulher irritante e fútil. Jessica a eleva a muito mais do que isso. Poderia citar também Bryce Dallas Howard - que aqui seria algo como 'o mal em pessoa' -, a qual humaniza muito bem a manipuladora e criadora da lei do 'banheiro-exclusivo-para-empregadas-negras-em-todas-as-casas' Hilly Holbrook. Ou então Emma Stone que dá toques sutis de personalidade para a rasa escritora Skeeter; ou Sissy Spacek (*-* Carrie *-*), ou Allison Janney, sei lá. Todas, menos Octavia Spencer.


    Sim, Octavia, favorita para Atriz Coadjuvante - e ganhadora da maioria dos prêmios na ''área'' - é a pior atriz entre todo o elenco. A pior porque não sai do estereótipo, ela o mantém e o piora ainda mais. Ela é a negra 'mano' da história: direta, sincera e explosiva; em que lembra muito Queen Latifah - até por ter uma indicação ao Oscar injusta -. Sua função, cumprida com razoável sucesso, é fazer rir. Nos momentos dramáticos, decepciona (principalmente numa cena com Celia, em um banheiro). Ah, e essas cenas cômicas aí, que mencionei; nenhuma delas deriva da maldita torta de merda, ok? Uma das coisas mais absurdas (você confundiria merda com chocolate?) e desnecessárias dos últimos tempos - e que impera nos tais momentos cômicos da obra. Na última meia-hora todos os personagens fazem algum comentário irônico sobre a malfada torta.


     Bom, já expliquei minha teoria de que qualquer ponto positivo daqui acaba virando um negativo, né? As interpretações são fantásticas, todavia as personagens 'cruas' são fracas. ''The Help'' faz rir, numa tentativa clara de torná-lo um feel good movie para a digestão da temática ser menos 'dolorosa'; no entanto falha miseravelmente nisso, na parte final. Então agora explico porque é como ''The Help'' que prefiro chamá-lo.

    Não é pela tradução literal 'A Resposta', numa alusão à uma resposta das empregadas negras às patroas brancas conservadoras. E sim por um tradução 'não oficial', como 'A Ajuda' mesmo. Aparentemente o filme nos diz que as negras daquela cidadezinha apenas conseguiram se reerguer e enfrentar a 'tirania' depois que uma branca lhes dá um suporte, lhes 'ajuda'. Pode parecer exagero meu, talvez seja mesmo. Porém onde está Martin Luther King, relegado à uma passagem mínima de um discurso seu na TV? Naquela exata época ele liderava a busca por direitos civis para os negros, só que quem inspirou essas empregadas foi uma mulher branca e não ele?


    Ah, e a KKK, hein? Uma menção mínima - ima, ima - e já está bom? Mais uma vez Tate Taylor (e talvez a escritora do livro original também tenha feito o mesmo) ignora o contexto histórico. A trama parece alheia ao resto do país, ao resto do estado Mississippi. Enfim, cheguei á conclusão de que ''The Help'' é muito bem interpretado de modo geral, porém porcamente roteirizado. O saldo final é negativo e irritante; mas pelas atrizes - e unicamente por elas- a nota não será mais baixa.      Nota: 5/10

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Crítica - Tudo Pelo Poder



    George Clooney é conhecidíssimo entre o público pelo seu lado ator, com participações por exemplo na série ''ER'' e no filme ''Onze Homens e um Segredo''. Entretanto, ele também dá as cartas como diretor (e roteirista) de tempos em tempos, realizando, por exemplo, o bom ''Boa Noite e Boa Sorte'', em 2005. Seu último filme como diretor, ''O Amor Não Tem Regras'', pode ter sido fraco, todavia ele parece ter voltado à qualidade com ''Tudo Pelo Poder'' (e também às indicações a premiações, como pelo filme de 2005).


    O cenário dessa vez é a política norte-americana, que se nunca deixa de ser exatamente ''atual'', se mostra mais importante nos últimos tempos devido à crise econômica. O ponto de vista é o do jovem assessor de imprensa Stephen Myers (Ryan Gosling), que trabalha para um dos candidatos democratas à presidência, Mike Morris (George Clooney). Stephen não só promove a campanha de Mike, como também acredita que certamente ele, caso eleito, mudará o seu país para melhor: além de funcionário, é, portanto, um eleitor esperançoso do candidato.


    Porém, toda essa crença de Stephen se desconstrói aos poucos, enquanto ele vai descobrindo os planos de seu candidato (e de seu adversário), além das próprias armações existentes dentro do comitê de Mike. Uma das coisas que diferencia o filme é que ele mostra o embate entre dois candidatos democratas durante a prévia de seu partido para a presidência. A teórica unidade política que deveria existir é praticamente nula, se assemelhando ao conflito contra os rivais republicanos. Não que isso seja exatamente original ou desconhecido do público, mas faz pensar: se há tudo isso durante prévias partidárias, quão sujos são os bastidores do duelo principal pela presidência?


    As armadilhas estão por toda parte, dentro da sua candidatura, da rival, colocadas pela imprensa... E Stephen, mesmo não sendo ingênuo, parecia acreditar que não andava em um campo tão espinhoso: mesmo estrategista, não deixava de ser um gentleman e sincero (Morris perguntar suas chances em certo estado a ele, e não a outro assistente superior, por saber que ele diria quais eram elas exatamente, ilustra bem). Se no começo do filme essa era a sua diferença em relação ao personagem de Philip Seymour Hoffman, Paul Zara, também assistente de Morris; as suas semelhanças com o tal parecem se realçar a cada minuto passado do longa. Isso para não compará-lo a Tom Duffy, interpretado por Paul Giamatti, estrategista do candidato adversário.


    Por falar em tantos atores, as interpretações, de modo geral, estão ótimas. Philip Seymour Hoffman é um grande ator, e mostra isso aqui também; Paul Giamatti, idem; George Clooney dá o charme necessário ao seu candidato Morris, bem correto; Evan Rachel Wood dá veracidade à sua personagem, a estagiária Molly; e Marisa Tomei é eficiente como a jornalista Ida. Entretanto, o grande destaque é Ryan Gosling, que leva o difícil personagem Stephen muito bem, levando a desconstrução dele a um nível ainda mais forte.


    O roteiro escrito por Grant Heslov e Clooney é maravilhoso, cheio de camadas e de críticas, desde as mais básicas e visíveis colocadas na trama central, até as que para melhor entendimento é necessário saber um pouco sobre política americana, como a sub-trama da personagem Molly: muito importante para a história e sua resolução, mas que pode parecer superficial para quem não sabe o ponto de vista democrata para o que estava ocorrendo. A direção de Clooney também é segura, guardando algumas sequências belíssimas e tomadas eficazes.


    Um filme corretíssimo, aparentemente merecedor das quatro indicações ao Globo de Ouro e de seu certo favoritismo a algumas também no Oscar (Ryan Gosling, por favor!). Um retrato interessante, poderoso e eficaz da política e que parece que elevará Clooney à promissor diretor novamente.         Nota: 8/10


 P.S.: Para quem gosta da série ''24 Horas'', uma participação especial de Gregory Itzin (o Charles Logan do seriado) é mais do que especial e ''irônica''. 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crítica - Meia-Noite em Paris

 

    Aluguei ''Meia-Noite em Paris'' meio desacreditado. Woody Allen é um dos diretores mais famosos do mundo, porém nunca me conquistava. Comecei a assistir à sua filmografia por ''Vicky Cristina Barcelona''. O nome me interessou, o filme estava sendo bem-falado (sim, eu assisti na época de lançamento, quando nem sabia nem quem era, por exemplo, Stanley Kubrick). Quanto ao longa, achei um tédio. O roteiro não dá liga, a narração em off domina tempo demais da projeção e os personagens, estereótipos latinos. A opinião foi mantida mesmo após revisão.
   
    Daí veio o também elogiado ''Match Point'', um filme bonzinho, entretanto blasé. A minha terceira tentativa veio com ''Tiros na Broadway'', que talvez seja o meio termo. O filme mesmo, é fraco. Mas com tantas atuações fortes e memoráveis, é difícil dar um dislikeE então, depois de muita enrolação, desculpas e temor... Assisti à ''Meia-Noite em Paris''. E gostei.
    
    O filme conta a história de Gil (Owen Wilson, em uma, quem diria, atuação convincente), que é apaixonado por Paris e que está prestes a se casar com Inez (a sempre eficiente Rachel McAdams). A ''ação'' começa mesmo quando Gil, bêbado, resolve caminhar pela cidade e recebe um convite de dois estranhos para entrar em seu carro e ir a uma festa (é, ele aceita). Daí, por um motivo inexplicado (e, no fim, irrelevante), ele acaba sendo levado de volta aos anos 20 (época que sempre glorificou como os melhores anos da história) e encontra, na tal festa, todos os seus ídolos literários, artísticos e cinematográficos.


    São os Fitzgerald de um lado, Picasso de outro, Hemingway ali na ponta e até Buñuel. O mais notável é que esses astros não soam clichês (exceto o Dalí de Adrien Brody), mesclando o que se sabe deles por biografia com um algo a mais, uma outra visão (talvez de Allen). E é nesse enredo que mistura cinema, história e psicologia que o filme se desenvolve.

    No campo das atuações, destaque para a sempre bela e oscarizada Marion Cotillard, a também oscarizada Kathy Bates e os já citados Wilson e McAdams. O roteiro é bem-produzido, com alguns diálogos brilhantes. E Allen, isso é inegável, é um ótimo diretor e que sabe transformar Paris de bela em deslumbrante, através de sua lente. Mas o mais importante e digno de nota é a mensagem: valorize o presente e pare de querer ter vivido em outra época, porque lá, segundo Allen, eles viam suas vidas, tal qual você vê a sua: parte de uma geração inútil.


    O filme é redondinho, perfeito para a parcela do público médio e consumidor de ''arte''. O que faltou, talvez, foi um pouco de equilíbrio, um enfoque maior na comédia (gênero de todos os filmes dele e que, dessa vez, ficou devendo) e, principalmente, coragem. Uma ideia tão inspirada poderia ter rendido algo ainda maior, Allen quis apenas entreter, fazer ''arte''. Com um pouco mais de força teria criado, quem sabe, um clássico do novo milênio, e não um bom coadjuvante.    Nota: 8/10

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Crítica - A Clockwork Orange (1971)

   O primeiro post desse blog falará exatamente de um dos meus filmes favoritos: Laranja Mecânica, dirigido por um dos melhores diretores de todos os tempos, Stanley Kubrick. A ''crítica'' feita abaixo (entre aspas, pois se trata mais de uma análise de significado da obra) foi originalmente publicada pelo meu perfil no Cineplayers, sendo o meu primeiro e único comentário por lá. 
 O Alex lindo *-*
   
    O texto, na minha opinião, só será bem compreendido por quem já viu o filme (mas não contém spoilers importantes, não!). Aqui vai ele:


     ''Alex DeLarge (Malcolm McDowell), um jovem líder de uma gangue de deliquentes que passam o dia estuprando, roubando, espancando ou realizando qualquer ato de violência. Descrição perfeita para os atuais agressores homófobicos ou criminosos do gênero? Pois é... Mas o filme é de 1972 mostrando exatamente uma visão futurista do nosso planeta que, em parte, aparentemente, está absolutamente correta. 
    
     Mas, se nossa sociedade não é realmente a bagunça retratada visualmente, não seria ela essa bagunça, mas, internamente? Uma sociedade alienada em que a violência, a corrupção, a intolerância e a desigualdade reinam escondida sob uma capa de desenvolvimento econômico e globalização não é uma bagunça?

     E, é por essa discussão representada pela violência praticada por Alex, sua redenção e, finalmente, seu sofrimento após o período de reabilitação; que Laranja Mecânica é tão magnífico. O fato de ele sofrer após ser solto a mesma maldade que causou pelas mãos dos anteriormente agredidos, demonstra esse propósito maior da obra.

    A crueldade e desimportância com a vida do próximo que Alex teve com suas vítimas retornam para ele, mesmo após já ter pago legalmente por isso. Ali vemos que maldade gera maldade, paga exatamente na mesma moeda. Ou seja, todos nós temos essa maldade dentro de nós pronta para florescer contra quem nos faz sofrer. E, para isso, temos um exemplo histórico: após o fim da Primeira Guerra, as humilhantes resoluções fizeram aparecer um exacerbado sentimento nacionalista que levou Hitler ao poder e, bem, deu no que deu... Se por maldade e interesses próprios, os vencedores não tivessem sido tão gananciosos, talvez o sofrimento causado pelo nazismo tivesse sido evitado.

   Tudo nesse filme é extremo, a violência, o tratamento de recuperação (terrível, no bom sentido, por sinal), a politicagem do Ministro do Interior... Toda a podridão do sistema bem retradada em uma única história, bem roteirizada, bem interpretada, bem dirigida, com uma bela trilha sonora e uma mensagem fantástica, com a qual só Kubrick poderia nos brindar.            Nota: 10/10''